domingo, 17 de agosto de 2014

Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará?









Queremos realmente conhecer a verdade ou buscamos somente uma verdade que nos seja suficiente, que nos alivie, nos console?

Há pessoas que preferem permanecer com suas certezas sem qualquer motivação para questioná-las?

É cômodo não saber, não ter que pensar, não problematizar?

Há uma relação entre verdade, felicidade e angústia?
Conhecer, buscar o esclarecimento, sair dos dogmas é direito de todos?
É factível a todos conhecer a verdade?
A verdade é perturbadora?
A filosofia é para todos os espíritos?
A verdade liberta?

Há uma máxima popular que diz que ninguém é dono da verdade, ou ainda, que tudo é relativo, que a verdade é relativa. Ela se adequaria a situações e ao gosto de cada um; percebe-se essa relatividade nas religiões, por exemplo, onde cada uma tem a sua verdade, renegando-se umas às outras, pondo-se como absolutas, apesar de o homem sonhar que ao menos uma delas, quando não várias, tenha as respostas para os absurdos e dúvidas da vida, mas a conotação de "mistérios" encontrada nas religiões demonstra, a quem se aventurar por uma delas, que terá de percorrer um longo e árduo caminho de busca para a verdade prometida.



As ciências assumem que muitas verdades são contextuais, conjeturais e passageiras até que se proponha e se imponha uma verdade nova que suplante a anterior e para isso teria que obedecer o método científico, "dogma" da ciência, a qual também é passível de renovação, no que se refere ao cotidiano e ao senso comum, a verdade chega a um nível de particularidade comunitárias, tribais, familiar e pessoal, que passa a ser um queijo suíço. 

Quatro tragédias sobre a verdade

A verdade liberta?

É uma questão que perpassa por esses filmes em cada protagonista. Sócrates apregoava que uma "vida não examinada não vale a pena ser vivida" (2), admitamos que haveria condições para estabelecermos uma vida refletida, a filosofia é uma bom caminho para isso, mas essas condições não são do conhecimento da grande maioria que passa pela vida à margem da reflexão, muitos por escolha preferem passar ao largo desse verdadeiro combate, pois essa conduta exige do homem uma atitude de discussão e embate constante com os padrões de vida postos socialmente, é um combate duro e sofrido, o não combate é mais cômodo, menos extenuante para muitos. A recusa a esse combate é ilustrada em Crimes e pecados, quando uma cética existencialista, numa discussão familiar sobre religião, arranca do tio religioso a informação que a verdade não importa para ele, o que está na bíblia é o que importa.

Livres?

Vivemos em um estado de penumbra, em uma caverna sem a identificá-la. A remota possibilidade de descobrir ainda poderá gerar uma reação negativa a esta descoberta como ocorre no Mito da Caverna de Platão, metáfora da condição do ser envolvido na ignorância do mundo à sua volta, da realidade verdadeira. Demonstra o quanto o caminho seria penoso a quem se propõe buscar a verdade. O herói quando retorna à caverna para comunicar aos outros prisioneiros a verdade ele é espancado e morto.

O conhecimento, a verdade e sua obtenção nortearam os quatro filmes do módulo Mito e Tragédia do livro História da Filosofia em 40 filmes(1) em nossas sessões caseiras. Medéia, OldBoy, Ladrões de bicicleta e Crimes e pecados apresentam o herói hora em fuga, hora em busca de algo que o mesmo às vezes não sabe exatamente o que é (Medéia, Old Boy), ou busca algo pensando ser sua salvação (Medéia e Ladrões de bicicleta) e por último um herói deslocado procurando entender o que é a felicidade com seu guru filósofo em paralelo a um assassino atormentado pelas consequências de seu ato (Crimes e Pecados).

A Medéia, de Passolini, tangencia por dois mundos do conhecimento: o mítico, na figura de Medéia e o racional na figura de Jasão que se confrontam, nunca dialogam, sendo que o mundo da lógica e da razão estaria se impondo ao velho mundo mítico. Depois entramos na tragédia moderna Oldboy, vimos a trajetória sangrenta e vingativa do personagem principal para descobrir por que passou 15 anos preso num quarto de hotel, quando o descobre percebe que preferia não saber.

Em Ladrões de bicicleta, filme de leitura marxista da realidade, vimos o herói na busca por uma bicicleta que lhe garantisse o emprego, um herói sem a mínima noção do absurdo da sua situação como peça de uma engrenagem de moer gente. Dentro do sistema de exploração da sua força de trabalho ele só cumpria seu papel tentando sobreviver, mas a integração no sistema não envolve necessariamente estar empregado, o desemprego é parte do processo de exploração do sistema capitalista.

Encerramos com Crimes e pecados. Aqui temos um herói que não se enquadra no padrão do homem ideal e em crise no casamento dirigindo um documentário sobre a felicidade com um filósofo, seu guru, sobrevivente de um campo de concentração, este teria respostas para sua angústias e buscas, mas ao final estas respostas se revelam inconclusivas

Na história paralela do longa temos um assassino não descoberto pela polícia se deparando com a questão do que seja realmente um criminoso, a sua culpa estaria vinculada com a certeza da punição social e mesmo religiosa, não havendo ele deixa de ser um criminoso, ao menos para ele mesmo. A felicidade é relativa à consciência de valores que carregamos ou com o que nos importamos para estar no mundo e ser aceito por ele, ainda que venhamos a mentir para ele e para nós mesmo. Ao herói frustado por não se enquadrar aos padrões sociais só lhe resta a angústia dos seus questionamentos. 


O filme Oldboy tem fortes traços do mito de Édipo, herói grego desgraçado pela verdade quando descobre ter matado o pai e esposado a mãe. O herói coreano tem uma segunda chance para ser feliz se escolher permanecer na ignorância e assim escolhe não saber. Em Ladrões de bicicleta o herói permanece o tempo todo vítima do sistema e o reproduz em micro escala ao procurar sua sobrevivência. Não percebe que a união com seus pares talvez lhe oferecesse a oportunidade de tentar mudar a sua exploração, não se sente explorado e interage com o seu mundo injusto, achando natural a sua condição, mesmo com a ajuda mística buscada por sua esposa obtém apenas uma resposta consolativa para continuar integrado na exploração de sua força de trabalho. 


No existencialismo a tão decantada liberdade se torna um fastio: "o homem está condenado a liberdade", afirma Sartre, apunhalando a visão que se tem em geral da liberdade como uma dádiva, que por sinal é a mesma sobre a busca do conhecimento e da sabedoria. 

Se analisarmos a figura estereotípica do filósofo angustiado chegaremos à conclusão de que ela não foge muito da realidade e mesmo aqueles que escolhem o contentamento do não questionamento das condições da sua caverna, não buscando a possível existência de outras possibilidades de estar no mundo, acaba ainda assim por usufruir da sua liberdade ao fazer a escolha por ignorar.
___________________________________________________________________

1) COSTA, Alexandre; PESSOA, Patrick. História da filosofia em 40 filmes. Rio de Janeiro: Nau, 2013. Mais detalhes aqui e aqui.

2) GRAYLING, A.C.. O significado das coisas: aplicação da filosofia à vida. Lisboa: Gradiva, 2002. p. 11-12. Mais aqui.

3) Mito da CavernaAqui uma análise.

sábado, 26 de abril de 2014

Medéia e Jasão: a esquizofrenia do logos

Fugindo da tese mais comum da vingança passional da Medéia de Eurípedes,  em "Medéa" de Pasolini temos dois mundos antagônicos representados. Primeiro Medéia a feiticeira desenraizada de sua terra e profundamente vinculada a um mundo que cultiva o misticismo, o divino, o mágico, em seguida Jasão,  o homem que aos poucos se distancia do mítico, se torna urbano, prático, cético, que não dialoga mais com o aquele mundo que estaria morrendo com o surgimento da filosofia,  representando o racionalismo, o logos em ascensão na Grécia antiga.

Hoje sabemos que o centro do universo não é a terra, o que é gravidade, o que são micróbios, o homem já foi a lua, temos bebês de proveta fabricados em escala industrial, discute-se a possibilidade em criar seres humanos com a manipulação genética, produzimos alimentos em abundância, apesar da fome ainda reinar; dominamos o átomo. Na virada do século 18 para o 19 acreditava-se que o homem abandonaria a religião, tamanha era a crença na ciência.

2500 anos depois do nascimento da filosofia ocidental o homem ainda vive atrelado ao pensamento mítico, o criacionismo explica para muitos o surgimento do universo e da vida e não o big bang e o evolucionismo. Se você acredita em cartas de tarot e horóscopo, não passa debaixo de escada, tem mendo de gato preto, faz sinal da cruz em frente da igreja,  desvira o chinelo para salvar sua mãe, você não está distante deste novo/velho  universo mítico.

O ser humano é a contradição em estado bruto e a levou para a filosofia, sua cria dita racional. Suas crenças são excludentes umas com as outras e sua filosofia ou  filosofias também.

A filosofia é vista por muitos como mera masturbação intelectual, movimentos teocráticos existem no mundo oriental e ocidental, a busca de respostas para o sentido da vida não é hegemonia das academias e mesmo os acadêmicos de várias linhas de pensamento tentam juntar misticismo e racionalismo. O homem ocidental talvez tenha se distanciado da crença simples e pura no misticismo, mas com a ciência e a filosofia criou uma nova corrente mais complexa de confusão mental,
algo como aquele poema "Ismália" de Alphonsus de Guimaraens:

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Rashomon nosso de cada dia






Em nosso primeiro encontro do CineFilô assistimos ao filme Rashomon de Akira Kurosawa, baseado nos contos "Dentro do bosque" e "Rashomon" de  R. Akutagawa.

A base do filme são as várias versões dos personagens sobre um mesmo acontecimento, o estupro de uma mulher e conseqüente morte do seu marido durante uma viagem.

Percebemos que os personagens se movem pelos seus interesses no relato dos acontecimentos, cada um conta sua versão de maneira que, apesar de estar em uma situação indigna, sua ação diante dela acaba tendo um mínimo de atitude digna. A viúva tenta manter sua dignidade de esposa desonrada relatando que tentou o suicídio após o ato consumado; o marido morto, intercedido por um médium, afirma que cometeu suicídio, pois este era o único caminho para sua dor e até mesmo o estuprador e assassino assume uma postura minimamente digna nos seus atos, justificando que foi por amor e mesmo não tendo a intenção de matar seu oponente, este morreu num duelo limpo.

Entre as várias discussões ocorridas no encontro, a mais acalorada foi uma comparação do filme com as notícias da imprensa sobre os black blocs e as passeatas. Moisés apontou pertinentemente que existem versões para tudo e perguntou sobre as razões da grande imprensa para as suas versões. Lembramos do episódio filmado de um policial que apanhou de uma série de manifestantes ou vândalos, como afirmam os jornalistas, durante a passeata do dia 25 de outubro no Parque D. Pedro. O mesmo incidente gerou comentários e versões nas redes sociais inversamente contrários um do outro. O vídeo na Mídia Ninja junto com a legenda parecia um ato de resistência, e o mesmo na G1, daria para se apiedar do policial. Diante dos mesmos episódios, assim como os personagens do filme, cada um verá e relatará os eventos imerso de interesse próprio, aspirações, espírito de corpo e, completo aqui, de espírito de porco (por que não?) se assim for conveniente. Quais então seriam os interesses da grande imprensa? A quem ela representa? O que importa de fato aos donos dos grandes veículos de comunicação? As perguntas soam até pueril e a resposta óbvia. 

Existe uma verdade diante da quebradeira dos caixas eletrônicos dos bancos? há justificativas plausíveis para atual situação das manifestações? Há um inconformismo contra o que? A quem interessa e a quem não interessa esta reação, violenta ou não, ainda que pacífica? Foi lembrando, que muitos atos de violência também foi cometido pela polícia.

No final do filme Rashomon é aberto à possibilidade de haver uma verdade neutra, um lenhador arrependido de seus atos decide contar os fatos como possivelmente ocorreram. Será que na vida real é possível haver diante de várias versões, alguém ou uma forma de contar um fato sem interesses pessoais, de classe ou de outra ordem?

Nas reuniões da Confraria Filosófica ao fazermos observações e comentários, tentamos buscar uma coerência e imparcialidade em nossas análises? Um meio termo talvez ou nossa ótica é sempre a partir do nosso interesse na questão? É consciente ou inconsciente esse processo?

Partindo do pressuposto que é impossível uma neutralidade, é possível nos aliarmos ao lado certo ou ao bom caminho? Existe o lado certo?

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Confraria em módulo “cinefilô”

A Confraria Filosófica pretende tornar-se mais cinéfila nos próximos encontros, atendendo a aspirações já antigas do grupo.

Norteados pelo livro A história da filosofia em 40 filmes de Alexandre Costa e Patrick Pessoa, professores de Filosofia da Universidade Federal Fluminense, pensamos em repetir a experiência destes autores e seguir o roteiro proposto no livro.


Tema 1 – O que é filosofia?

Rashmon (Akira Kurosawa)
Persona (Ingmar Bergman)
Stalker (Andrei Tarkovski)
Blow up (Michelangelo Antonioni)

Tema 2 – Questões estéticas

Morte em Veneza (Luchino Visconti)
8 ½ (Frederico Fellini)
Cidade dos sonhos (David Lynch)
Asas do desejo (Wim Wenders)

Tema 3 – Mito e tragédia

Medeia (Pier Paolo Pasolini)
Oldboy (Chan-wook-Park)
Ladrões de bicicleta (Vittorio De Sica)
Crimes e pecados (Woody Allen)

Tema 4 – O existencialismo

A doce vida (Frederico Felini)
Estranhos no paraíso (Jum Jarmush)
Acossado (Jean-Luc Godard)
As coisas simples da vida (Edward Yang)

Tema 5 – O amor em fuga

Aurora (F.W. Murnau)
Janela indiscreta (Alfred Hitchcock)
Todas as mulheres do mundo (Domingos Oliveira)
O último metrô (François Truffaut)

Tema 6 – Morte e infinitude

Nosferatu, o vampiro da noite (Werner Herzog)
Hiroshima me amor (Alain Resnais)
Paris, Texas (Wim Wenders)
O sétimo selo (Ingmar Bergman)

Tema 7 – História e violência

Ricardo III (Al Pacino)
Machbeth (Roman Polanski)
Dogville (Lars von Trier)
Marcas da violência (David Cronenberg)

Tema 8 – O fascismo hoje

M, o vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang)
Taxi Driver (Martin Scorcese)
Apocalypse now (Francis Ford Coppola)
Laranja mecânica (Stanley Kubrick)

Tema 9 – Cinema e revolução

O anjo exterminador (Luis Buñuel)
O encouraçado Potemkin (Sergei Eisentein)
O homem sem passado (Aki Kaurismaki)
Nós que nos amávamos tanto (Ettore Scola)

Tema 10 – O cinema nacional e a interpretação do Brasil

São Bernardo (Leon Hirsman)
Deus e o Diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
Brás Cubas (Julio Bressane)
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O retrato de Dorian Gray: minha resenha do Skoob

Li O retrato de Dorian Gray pela primeira vez em 2010. Guardei minhas citações favoritas do livro no Skoob, pois as achei muito preciosas, dignas de serem lembradas para sempre, confesso que não esperava ser surpreendida por tantas frases impactantes. E no fim do livro me senti inspirada até para fazer espontaneamente uma resenha, que também está no meu perfil da rede social de leitores.

Bonitinho e nada ordinário.

"Dorian Gray pôs a vaidade acima da felicidade, foi seu erro e sua perdição. Buscando sempre o prazer em cada experiência vivida, sem considerar os sentimentos alheios, ele arruinou a vida de várias pessoas, cometeu crimes e sujou sua alma. Se a verdadeira beleza consiste na interior porque é aquela que cultivamos e não aquela que recebemos ao nascer e da qual nenhuma culpa temos, pois não escolhemos a nossa aparência física, Dorian só descobre isso no final de sua vida, ao perceber que se tornou um monstro. A sua aparência era perfeita, mas sua presença era maligna, seu rastro era de desgraça, quem andava com Dorian acabava mal, aos poucos as pessoas foram percebendo sua perversidade, sua falta de consciência e de culpa por seus atos. Morre arrependido, percebendo que jogou sua vida fora atrás de algo que em troca não lhe trouxe nenhuma vantagem. Os aprendizados que a vaidade lhe trouxe não o fizeram um homem mais sábio, nem ser mais querido ou ter mais amigos. A influência de "amigos" que inclusive foi um dos temas mais marcantes na história, a presença de Lord Henry, uma má influência, por sinal, um homem que vira a cabeça de Dorian com suas ideias charlatãs sobre a vida, a arte e a juventude. Se fosse um conto com personagens tipo: Lord Henry seria o diabinho, Basil seria o anjinho e Dorian o parvo. Uma história que faz pensar muito sobre as escolhas que fazemos na vida, nas más influências dos amigos, na valorização exacerbada da juventude, como se a felicidade só pudesse ser alcançada quando jovens. Uma pena que a redenção de Dorian venha com o seu suicídio, foi uma vida perdida, tantos talentos a serem desenvolvidos, mas todo seu potencial foi usado para más ações. Dorian não transcende o dilema do fim da juventude, e acho que o nós, seres humanos, também ainda não transcendemos, o que Oscar Wild nos deixa é uma pergunta sobre como lidar com o fim da juventude e consequentemente com o fim da vida."

Citações favoritas - O retrato de Dorian Gray



Estas são as minhas citações favoritas do livro O retrato de Dorian Gray, que foram salvas originalmente na minha conta do Skoob em 2010, quando li a versão da L&PM Pocket.

O retrato de Dorian Gray - edição L&PM Pocket


"Pois a beleza não fora senão uma máscara, e a juventude uma zombaria." (p.241)

"(...) o que mais o preocupava era a morte em vida da própria alma." (p. 241)

"A arte não tem qualquer influência sobre a ação. É estéril, em sua soberba. Os livros que o mundo chama de imorais são livros que mostram ao mundo a própria vergonha." (p. 238)

"A vida é uma questão de nervos, fibras, de células, construídas aos pouquinhos, em que o pensamento se esconde e a paixão sonha." (p. 237)

97% (236 de 244)

"É um absurdo dizer que a juventude é ignorante." (p. 236)

"A tragédia da velhice não é a existência do velho, mas sim, a existência do jovem." (p. 236)

"Pensei em ir dizer ao profeta que arte possui alma, mas o homem não. Receio, entretanto, que ele não me iria compreender." (p. 235)

"As coisas de que temos certeza absoluta jamais são verdadeiras. É esta a fatalidade da fé, a lição do romance." (p. 235)

"- Quando um homem trata a vida com arte, o cérebro é o próprio coração." (p. 234)

"– Por falar nisso, Dorian, “qual a vantagem de um homem em conquistar o mundo inteiro e perder” – como é mesmo a citação? – “a própria alma”?" (p. 234)

"Não devemos fazer nada sobre que não possamos conversar depois do jantar." (p. 233)

"Todo crime é vulgar, assim como toda vulgaridade é crime." (p. 232)

"Qualquer um pode ser bom no campo; não tentações. Eis o motivo por que as pessoas que vivem fora da cidade são tão pouco civilizadas. A civilização não é, de maneira alguma, coisa fácil de se atingir, e há apenas duas maneiras por que o homem é capaz de alcançá-la. Uma delas, sendo culto, e a outra, sendo corrupto. Como as pessoas do campo não tem a oportunidade de ser nem um coisa nem outra, estagnam." (p. 229)

"- Sabê-lo seria fatal. O encanto está na incerteza. A bruma torna as coisas maravilhosas." (p. 225)

  Gosto muito da Duquesa, mas não a amo. 
– E a Duquesa o amo muito, mas não gosta tanto. Portanto, uma combinação excelente." (p. 223)

"– A base de todo escândalo é uma certeza imoral." (p. 223)

"- Neste mundo, Dorian, a única coisa horrível é o tédio. Eis o único pecado para o qual não há perdão." (p.222)

"Você tem, do mundo, tudo o que um homem pode querer. Não há um só que não queira trocar de lugar com você. – E não há um só com quem eu não trocaria de lugar Harry." (p.222)

"Não sinto pavor da morte, o que me aterroriza é a aproximação da morte." (p. 222)

"(...) doente, com um medo alucinado da morte e, ao mesmo tempo, indiferente à vida." (p. 218)

"A vida real era sempre um caos, mas havia, na imaginação, algo de uma lógica terrível." (p. 218)

"No mundo ordinário do fato, os maus não eram punidos, e nem os bons recompensados. O sucesso era lançado sobre os fortes, e o fracasso, sobre os fracos." (p. 218)

"-Descreva o nosso sexo – veio o desafio. - Esfinges sem segredos." (p. 217)

"- A arte romântica começa pelo clímax."(p. 217)

"- Que crianças queimadas gostam de fogo." (p. 216)

"Quem quer ser popular, tem que ser uma mediocridade." (p. 215)

"Nós mulheres, como alguém já disse, amamos com nossos ouvidos, assim como vocês homens, amam com os olhos. Isto é, se é que amam." (p. 215)

"– Eu jamais procurei a felicidade. De que vale a felicidade? De minha parte, sempre procurei o prazer." (p. 215)

"Definir é limitar" (p. 214)

"É a triste realidade, perdemos a faculdade de darmos nomes bonitos às coisas. Os nomes são palavras. Por este motivo odeio o realismo vulgar na literatura. O homem que consegue chamar a espada de espada deveria ser compelido a usá-la, pois, para isto, apenas isto, que serve." (p. 212)

"- Eu anuncio as verdades do amanhã. - Pois eu prefiro os erros de hoje."  (p. 212)

"- Eu jamais enristo com beleza. - É esse seu erro, Harry, acredite. Você dá excessivo valor à beleza. - Não fale assim. Acredito, admito, que é melhor ser bela do que generosa. Mas, por outro lado, ninguém mais do que eu, está preparado para reconhecer que é melhor ser generoso que feia." (p. 212)

 "- A fealdade, Gladys, é uma das sete virtudes capitais. Você, como uma boa tóri, não deve subestimá-las. A cerveja, a Bíblia e as sete virtudes capitais fazem da Inglaterra o que ela é hoje. - Você, então, não gosta de seu país? - Eu vivo nele."  (p. 212)

"Há momentos, dizem-nos os psicólogos, quando a paixão pelo pecado, ou por aquilo que o mundo chama de pecado, domina de tal maneira uma personalidade, que toda fibra do corpo, e toda célula do cérebro, parece ser instinto com impulsos receosos. Nesses momentos, homens e mulheres perdem a liberdade da vontade. Como autômatos, dirigem-se ao fato terrível. A escolha é-lhes subtraída, e a consciência, morta, ou então, se conseguir viver, vive apenas par dar fascínio à revolta, e encanto à desobediência. Pois todos os pecados, como não se cansam de nos lembrar os teólogos, são pecados da desobediência. Quando, dos céus, cai o espírito maior, a estrela matutina do mal, é como rebelde que cai." (p. 208)

"Cada um vive a própria vida, e paga o preço de viê-la. Em tudo, a única pena é que com freqüência, temos que pagar um preço alto por uma única falta. E, na verdade, estamos sempre a pagar. No trato com o homem, o Destino jamais encerra as contas." (p. 207)

"Não aguento mulheres que amam. Mulheres que odeiam são bem mais interessantes." (p. 206)

"Diz-se que paixão nos faz pensar em círculos." (p. 204)

"(...) e o desejo louco de viver, o mais terrível de todos os apetites do homem, transformou, célebre, em força, todos os nervos e fibras trêmulas." (p. 204)

"A fealdade era a única realidade. O burburinho grosseiro, o antro repugnante, a violência crua da vida desordenada, a vileza íntima do ladrão e do proscrito, eram mais vívidos, com a atualidade intensa da impressão que causam, que todas as formas graciosas de arte, as sombras oníricas da canção." (p. 204)

"Dorian Gray observava a vergonha sórdida da cidade grande e, de vez em quando, repetia as palavras de Lorde Henry no dia em que se conheceram: “Curar a alma por meio dos sentidos, e os sentidos, por meio da alma.” (p. 202)

"- Ele me aborrece demais, quase tanto quanto a aborrece. Ela é muito esperta; para uma mulher, esperta demais. Carece do charme indefinível da fragilidade. É o pedestal de barro que faz precioso o ouro da imagem, e ela embora de pés lindos, não possui pés de barro. Digamos talvez, que ela possui pés de porcelana alva, que já caminharam sobre o fogo. E o que o fogo não destrói, enrijece. Ela tem suas experiências." (p. 199)
06/12/2010
81% (197 de 244)

"- Gosto de homens que tenham futuro, e de mulheres que tenham passado. Ou será que isto ia dar em festinha de criança?" (p. 197)

"Quando a mulher se casa de novo, é porque detestava o marido anterior. E o homem, quando se casa de novo, é porque adorava a última mulher. As mulheres tentam a sorte; os homens arriscam-na.” (p. 196)

“(...) hoje em dia, todos os homens casados vivem como solteiros, e todos os solteiros, como casados." (p. 196)

"Neste país, basta que um homem possua distinção e cérebro para que a língua comum faça dele galhofa. E que tipo de vida levam estas pessoas que posam como moralistas? Meu caro companheiro, você já esqueceu que vivemos na terra natal da hipocrisia? – Dorian! Não é esse o problema. Sei que a Inglaterra é ruim, e que a sociedade inglesa está toda errada. [...] Temos todo o direito de julgar um homem pelo efeito que causa nos amigos, e o efeito que você causa parece desprovido de qualquer sentido de honra, bondade ou pureza. Você os encheu da loucura do prazer, e eles desceram às profundezas." (p. 167)

"O pecado sempre se inscreve no rosto dos homens, impossível escondê-lo." (p. 166)

"Dorian Gray fora envenenado por um livro. Momentos houve em que ele olhara a maldade como um simples modo de poder realizar sua concepção do belo." (p. 163)

"Sentia que as conhecia todas, aquelas figuras terríveis, singulares, que atravessaram o palco do mundo e fizeram do pecado algo tão maravilhoso e, do mal, algo tão cheio de sutiliza. A ele parecia que, de um modo algo misteriosos, aquelas vidas foram sua própria vida." (p. 160)

"A sociedade, ao menos a sociedade civilizada, não está preparada para acreditar em qualquer coisa que venha em detrimento dos que são, ao mesmo tempo, ricos e fascinantes.” (p. 158)

“Pois os cânones da boa sociedade são, ou deveriam ser, os mesmos que os cânones da arte. Para ela, de modo absoluto, a forma é essencial. Ela almeja a dignidade, e também a irrealidade, de uma cerimônia, e a combinação da natureza insincera de uma peça romântica com a sabedoria e a beleza que fazem com que tais peças nos sejam deliciosas. A insinceridade é assim tão terrível? Creio que não. É um simples método por que podemos multiplicar nossas personalidades." (p. 158)

"Estes tesouros, pois, e tudo o que colecionava em sua residência adorável, eram, para ele, meios de esquecimento que poderia escapar, por uma estação, do medo que parecia, a ele, às vezes, grande demais para ser suportado." (p. 156)

"(...) quase entristeceu-se ao refletir sobre a ruína que o tempo trazia às coisas lindas e maravilhosas. Ele, de um jeito ou de outro, conseguira escapar." (p. 153)

"Ainda, como já se dissera dele antes, nenhuma teoria da vida parecia, a ele, importante, quando comparada com a própria vida. Sentia a consciência aguçada de quão estéril é toda a especulação intelectual quando apartada da ação e do experimento. Sabia que os sentidos, não menos que a alma, têm seus mistérios espirituais a revelar." (p. 148)

"(...) pensava na ruína que trouxera á própria alma, com uma pena que, de puro egoísmo, era ainda mais dolorosa. Eram raros, porém, momentos tais. Aquela curiosidade a respeito da vida, nele desperta, pela primeira vez, por Lorde Henry, quando sentados no jardim do amigo comum, parecia aumentar em gratificação. Quanto mais conhecia, tanto mais desejava conhecer. Assolavam-no fontes alucinantes que, à medida que as alimentava, esfaimavam-se ainda mais." [...] o tipo que combinava a cultura real do erudito, com toda a graça, distinção e os modos perfeitos de um cidadão do mundo.” (p. 144)

“Assim como Gautier, Dorian era alguém para quem “existia o mundo visível”. (p. 144)
“E, é claro, a vida em si, para ele, era a primeira, a maior das artes, para a qual todas as demais artes pareciam apenas uma preparação." (p. 144)

"Basil, tê-lo-ia ajudado a resistir à influência de Lorde Henry, e às influências ainda mais venenosas oriundas de seu próprio temperamento." (p. 134)

"A forma e a cor nos dizem da forma e da cor, e só. A mim me parece, com freqüência, que a arte, muito mais do que revelar o artista, o esconde de modo ainda mais categórico." (p. 130)

"Dorian desde o primeiro momento em que o conheci, sua personalidade teve, sobre mim, uma influência extraordinária. Fiquei dominado, alma, cérebro e energia, por você. Para mim, você era a encarnação visível daquele ideal oculto cuja lembrança nos assedia, na os artistas, como um sonho exótico. Idolatrarei você. Senti ciúmes das pessoas com que você falava. Queria tê-lo todo para mim. Sentia-me feliz apenas quando estava com você. E nas vezes em que Steve longe de mim, ainda assim estava presente em minha arte... O que eu sabia, apenas, é que havia deparado, frente a frente, com a perfeição, e que o mundo se havia se transformado, aos meus olhos, num mundo maravilhoso.” (p. 129)

E fora tudo o que deve ser arte: inconsciente, ideal e remota." (p. 129)

"Ser o espectador de nossa própria vida é, como diz Harry, fugir ao sofrimento dela." (p. 125)

"Não fale de coisas horríveis. Se não falarmos delas, deixam de ter acontecido. É a simples expressão, como diz Harry, que dá realidade às coisas." (p. 122)

"Mas quem, que nada sabe da vida, não se entregaria à oportunidade de permanecer sempre jovem, por mais que fosse fantástica a oportunidade, por mais conseqüências fatídicas que carregasse?" (p. 120)

"A partir do momento em que ela tocou a vida real, estragou-a, e a vida a estragou, então ela se foi. (p. 118)

“- A vida tem tudo guardado pra você, Dorian. Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer. – Mas suponha, Harry, que eu me torne macilento, velho e enrugado. O que acontecerá? - Então, meu caro Dorian, você teria que lutar por suas vitórias. Como as coisas estão postas, as vitórias vêm a você. Não, você deve conservar sua beleza. Vivemos numa era que, por tanto ler, não pode ser inteligente, e que, por muito pensar, não pode se bela." (p. 118)

"Mas, na verdade, Dorian, Sybil Vane deve ter sido muito diferente de todas estas mulheres que encontramos por aí. (...) Elas nos fazem acreditar na realidade das coisas com que todos temos que jogar, como o romance, a paixão, o amor. - Eu fui muito cruel com ela. Já se esqueceu? - Receio que as mulheres gostem de crueldade, da crueldade sem-cerimônia, mais do que qualquer outra coisa. Possuem instintos primitivos maravilhosos. Nós as emancipamos, mas elas, como escravas, seguem à procura de seus donos. É tudo a mesma coisa. Adoram se dominadas.” (p. 117)

“Ela, na verdade, nunca viveu e, portanto, nunca morreu." (p. 117)

"Além disso, o que mais deixa uma mulher vaidosa é dizer a ela que é uma pecadora." (p. 116)

"Teria feito com que eu amasse o amor pelo resto da minha vida.” (p. 115)

“Certa vez, durante toda uma estação, usei violetas como forma de luto artístico por um romance que não queria morrer. Mas, enfim, morreu, e não me lembro o que o matou." (p. 115)

"Lembro de ouvi-lo dizer, um dia, da fatalidade que envolve as boas decisões; quando as tomamos, já é tarde demais. A minha, na certa, veio tardia."

(p.114)

"- Meu caro Dorian. O único modo por que a mulher consegue reformar um homem é entediando-o ao máximo, até fazê-lo perder todo o interesse na vida. Se você se tivesse casado com esta mulher, estaria desgraçado. Claro, você a trataria bem. Sempre podemos ser generosos para com pessoas a quem não ligamos nem um pouco. E ela logo descobriria sua absoluta indiferença para com ela. E quando a mulher descobre isto a respeito do marido, ou passa a andar esmolambada, ou, ou passa a usa chapéus vistosos, adquiridos por maridos de outras mulheres." (p. 113)

"Matei-a, como se lhe tivesse cortado a garganta com uma faca. E nem por isso as rosas estão menos bonitas. No meu jardim, os pássaros continuam a cantar com a mesma felicidade. E hoje à noite, vou jantar com você, depois irei a Ópera, e depois, creio, irei cear em algum lugar. A vida é mesmo muito dramática! Se eu tivesse lido tudo isto num livro, Harry, acho que teria chorado. Bem, mas agora que a coisa aconteceu de fato, parece, a mim, maravilhosa demais para comportar lágrimas." (p.112)

"Aqui, não devemos debutar com escândalos, devemos reservá-los para chamar a atenção sobre nós, quando envelhecemos" (p.111)

"- Passei mesmo por isto. Mas agora, estou bem feliz. Para começar, já sei o que é a consciência. Não é o que você me disse que era. É a coisa mais divina que temos em nós. Não zombe. Nunca mais, Harry... ao menos, na minha frente. Eu quero ser bom. Não suporto a idéia de possuir uma alma repulsiva.
- Que base artística, muito encantadora, pra a ética Dorian!" (p. 110)

"Uma coisa, porém, ele sentia, o quadro fizera por ele. Fizera-o consciente de quão injusto, quão cruel, fora para com Sibyl Vane. Mas ainda havia tempo para a reparação, e ela ainda poderia ser sua esposa. Aquele amor irreal, egoísta, capitularia diante de alguma influência superior, seria transformado em alguma paixão mais nobre, e o retrato, pintado por Basil Hallward, seria, para ele, por toda a vida, um guia, seria, para ele, o que o sacro é para uns, e a consciência, para outros, e o temor a Deus, para todos nós. Existem opiatos para o remorso, drogas capazes de acalentar ao sono o sentido moral. Eis um símbolo visível de degradação do pecado. Eis um sinal onipresente da ruína que os homens trouxeram para suas almas. (p.109)

“Há, na auto-reprovação, uma certa suntuosidade. Quando nos acusamos, sentimos que ninguém, mais tem o direito de acusar-nos. É a confissão, e não padre, que nos dá a absolvição. Ao terminar a carta, Dorian já se sentia perdoado." (p.109)

"Havia uma conta meio salgada, de um estojo de toucador Luís Quinze, em prata entalhada, que ainda não tivera a coragem de enviar aos tutores, pessoas demasiado antiquadas, incapazes de perceber que vivemos numa era em que as coisas desnecessárias são nossas únicas necessidades” (p.107)

"Logo que se vestiu, foi à biblioteca (...)" (p.107)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caminhos inglórios

No último encontro da Confraria Filosófica, em que lemos O Rei Lear, a Jess e eu cogitávamos sobre uma frase de Edmundo que chamou muito a nossa atenção:

Edmundo: Eis a sublime estupidez do mundo; quando nossa fortuna está acabada – muitas vezes pelos excessos de nossos próprios esforços de nossos próprios atos – culpamos o sol, a lua e as estrelas pelos nossos desastres; como se fôssemos canalhas por necessidade, idiotas por influência celeste; escroques, ladrões e traidores por comando do zodíaco; bêbados, mentirosos e adúlteros por força da obediência a determinações dos planetas; como se toda perversidade que há em nós fosse pura instigação divina. É admirável a desculpa do homem devasso – responsabiliza uma estrela por sua devassidão. Meu pai se entendeu com minha mãe sob a Ursa Maior; porquanto devo ser lascivo e perverso. Bah! Eu seria o que sou, mesmo que a estrela mais virginal do firmamento tivesse iluminado a minha bastardia. (ATO I, CENA III, p.22)

Depois achei esta frase de Kent que defende uma ideia completamente contrária à de Edmundo.

Kent: São as estrelas, as estrelas que acima de nós governam nossos temperamentos. Senão um mesmo casal não poderia gerar filhos tão diferentes. (ATO IV, CENA III, p.103)

A princípio parece meio incipiente a discussão, se os astros influenciam ou não a nossa personalidade. Mas a real pergunta de Kent e de Edmundo é de onde vem a maldade no ser humano. É inerente, como diz Edmundo, ou tem fatores externos, como diz Kent?

A revista Época da semana passada (6 agosto de 2013) traz essa mesma indagação, com o vilão Félix (Mateus Solano), da novela Amor à Vida na capa.


Edmundo na pós-modernidade?
A reportagem da revista Época aborda basicamente a relação entre a biologia humana e os crimes, apresentando vários casos em que os criminosos tinham alguma disfunção hereditária no cérebro. Será que somos biologicamente programados para fazer o mal? Até que ponto pode a genética influenciar? Na reportagem apesar de constatarem a influência de problemas neurológicos em vários criminosos, os cientistas também admitem que o cérebro é capaz de mudar de acordo com as atitudes do sujeito. Isto é, mesmo um cérebro com disfunção para sentir emoção e empatia, como é o caso de psicopatas, este seria moldável por fatores externos (não biológicos). Além disso, o texto afirma que a maioria dos criminosos na sociedade não tem disfunção cerebral alguma e que muitos indivíduos com disfunção cerebral para emoções e empatia nunca se torna um criminoso.

Segundo a teoria behaviorista de Skinner nossa personalidade ou comportamento é determinado pelo tripé: organismo (predisposição biológica), ambiente (cultura) e história de vida do indivíduo. Astros e estrelas celestes ficam de fora. 

O que está em evidência o tempo todo na peça de Shakespeare é o individuo e seus atos de nobreza ou vilania, de honra ou desonestidade, bem ou mal. O que faz com que filhas de mesmo pai e mesma mãe, sejam tão diferentes? – é a real pergunta de Kent. 

Certa vez conversando com meu avô, eu dizia que meus irmãos iriam, sim, por um bom caminho na vida, fariam faculdade também, pois a criação era a mesma e tal. E aí meu avô me perguntou: 

- Beatriz, os dedos das mãos são todos iguais?
- Não
- E todos dedos vêm da mesma mão e do mesmo braço, não é?
- É.
- Então por que você e seus irmãos seriam iguais só por que vem dos mesmos pais?
- !?!? (Um a zero pro meu vô...)

Gattaca
O filme Gattaca – Experiência genética (spoilers) trata de mais um fator comportamental que é desconsiderado na teoria de Skinner – a escolha. Pois bem, a personagem principal do filme, Vincent, é um homem imperfeito biologicamente, pois foi gerado de maneira natural, sem manipulação genética para ter olhos de determinada cor, aptidão para música, outros talentos etc. Teoricamente, além de Vincent ser o mais feio e "burro" em comparação com os demais, ele também deveria ser violento, imprevisível e o suspeito principal de um assassinato. Mas e a escolha individual de Vincent? Suas ambições? Suas aspirações? Quem ele deseja ser na vida? Como ele quer viver sua vida? Isso é sempre determinado pelos genes? Esse é o questionamento do filme.

Já na peça de Shakespeare, Edmundo, filho bastardo do duque de Gloucester, exime as estrelas de culpa por sua maldade e assume que é do jeito que é porque quer.

 
                                                 Memepedia YouPIX


Me pergunto qual seria a solução para a maldade. Será que a disciplina da Ética ensinada por Aristóteles seria realmente capaz de eliminar a maldade? Ou será que Sócrates conseguiria convencer aos maus pela lógica que os caminhos inglórios não valem a pena. Ou será ainda, como sugeriu Félix na cena acima, que a psicoterapia seria capaz de tornar honesto um sujeito torto? 


Laranja mecânica, 1971
Outros filmes e livros também abordam a questão da possível recuperação da delinquência. Um dos mais famosos é o Laranja Mecânica.

No fim da história de Shakespeare, Edmundo tenta se redimir fazendo seu único ato bom na história:

Edmundo: Anseio pela vida; quero fazer algo de bom a despeito de minha natureza... Depressa mandem alguém ao castelo...Não percam tempo...eu dei ordem...escrevi...condenado à morte Cordélia e o Rei. Corram enquanto é tempo. (ATO V, CENA III, p.136)

Fernando Savater, em seu livro A importância da escolha, tem uma frase interessante sobre a liberdade de escolher entre fazer o bem ou o mal, ou por a culpa nas circunstâncias ou no genoma: 

“O curioso dessas próteses que aliviam a responsabilidade é que funcionam só para a culpa, jamais para o mérito. Nenhum ganhador do Prêmio Nobel ou alpinista que chega ao cume do Everest dilui o fulgor de sua façanha atribuindo-a as suas condições sociais ou à sua feliz dotação genética: foram eles mesmos, contra ventos e marés adversos, quem estudaram, quem esforçaram, derrotaram a incompreensão e as dificuldades, etc. Somo excelentes graças a nós mesmos, mas somos maus e deficientes apesar de nós mesmos.” (p. 70)

Edmundo e Félix possuem vários pontos em comum: filhos relegados pelos pais, inveja dos irmãos, a ambição de conseguir seus objetivos por meios ilegais e sem escrúpulos, noção reduzida do perigo, pois armam seus golpes e mentiras, com a certeza de não serem punidos, e o desejo de poder que os guia a querer cada vez mais. Esses dois personagens que nasceram "desprivilegiados", teriam tudo para se tornarem vítimas, mas resolveram tornarem-se algozes. 

E por último, a reportagem da revista Época nos lembra de que biologia não é destino, pois ainda nenhum cientista ou filósofo conseguiu desvendar totalmente o que se passa nos territórios mais escuros da alma humana.