sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caminhos inglórios

No último encontro da Confraria Filosófica, em que lemos O Rei Lear, a Jess e eu cogitávamos sobre uma frase de Edmundo que chamou muito a nossa atenção:

Edmundo: Eis a sublime estupidez do mundo; quando nossa fortuna está acabada – muitas vezes pelos excessos de nossos próprios esforços de nossos próprios atos – culpamos o sol, a lua e as estrelas pelos nossos desastres; como se fôssemos canalhas por necessidade, idiotas por influência celeste; escroques, ladrões e traidores por comando do zodíaco; bêbados, mentirosos e adúlteros por força da obediência a determinações dos planetas; como se toda perversidade que há em nós fosse pura instigação divina. É admirável a desculpa do homem devasso – responsabiliza uma estrela por sua devassidão. Meu pai se entendeu com minha mãe sob a Ursa Maior; porquanto devo ser lascivo e perverso. Bah! Eu seria o que sou, mesmo que a estrela mais virginal do firmamento tivesse iluminado a minha bastardia. (ATO I, CENA III, p.22)

Depois achei esta frase de Kent que defende uma ideia completamente contrária à de Edmundo.

Kent: São as estrelas, as estrelas que acima de nós governam nossos temperamentos. Senão um mesmo casal não poderia gerar filhos tão diferentes. (ATO IV, CENA III, p.103)

A princípio parece meio incipiente a discussão, se os astros influenciam ou não a nossa personalidade. Mas a real pergunta de Kent e de Edmundo é de onde vem a maldade no ser humano. É inerente, como diz Edmundo, ou tem fatores externos, como diz Kent?

A revista Época da semana passada (6 agosto de 2013) traz essa mesma indagação, com o vilão Félix (Mateus Solano), da novela Amor à Vida na capa.


Edmundo na pós-modernidade?
A reportagem da revista Época aborda basicamente a relação entre a biologia humana e os crimes, apresentando vários casos em que os criminosos tinham alguma disfunção hereditária no cérebro. Será que somos biologicamente programados para fazer o mal? Até que ponto pode a genética influenciar? Na reportagem apesar de constatarem a influência de problemas neurológicos em vários criminosos, os cientistas também admitem que o cérebro é capaz de mudar de acordo com as atitudes do sujeito. Isto é, mesmo um cérebro com disfunção para sentir emoção e empatia, como é o caso de psicopatas, este seria moldável por fatores externos (não biológicos). Além disso, o texto afirma que a maioria dos criminosos na sociedade não tem disfunção cerebral alguma e que muitos indivíduos com disfunção cerebral para emoções e empatia nunca se torna um criminoso.

Segundo a teoria behaviorista de Skinner nossa personalidade ou comportamento é determinado pelo tripé: organismo (predisposição biológica), ambiente (cultura) e história de vida do indivíduo. Astros e estrelas celestes ficam de fora. 

O que está em evidência o tempo todo na peça de Shakespeare é o individuo e seus atos de nobreza ou vilania, de honra ou desonestidade, bem ou mal. O que faz com que filhas de mesmo pai e mesma mãe, sejam tão diferentes? – é a real pergunta de Kent. 

Certa vez conversando com meu avô, eu dizia que meus irmãos iriam, sim, por um bom caminho na vida, fariam faculdade também, pois a criação era a mesma e tal. E aí meu avô me perguntou: 

- Beatriz, os dedos das mãos são todos iguais?
- Não
- E todos dedos vêm da mesma mão e do mesmo braço, não é?
- É.
- Então por que você e seus irmãos seriam iguais só por que vem dos mesmos pais?
- !?!? (Um a zero pro meu vô...)

Gattaca
O filme Gattaca – Experiência genética (spoilers) trata de mais um fator comportamental que é desconsiderado na teoria de Skinner – a escolha. Pois bem, a personagem principal do filme, Vincent, é um homem imperfeito biologicamente, pois foi gerado de maneira natural, sem manipulação genética para ter olhos de determinada cor, aptidão para música, outros talentos etc. Teoricamente, além de Vincent ser o mais feio e "burro" em comparação com os demais, ele também deveria ser violento, imprevisível e o suspeito principal de um assassinato. Mas e a escolha individual de Vincent? Suas ambições? Suas aspirações? Quem ele deseja ser na vida? Como ele quer viver sua vida? Isso é sempre determinado pelos genes? Esse é o questionamento do filme.

Já na peça de Shakespeare, Edmundo, filho bastardo do duque de Gloucester, exime as estrelas de culpa por sua maldade e assume que é do jeito que é porque quer.

 
                                                 Memepedia YouPIX


Me pergunto qual seria a solução para a maldade. Será que a disciplina da Ética ensinada por Aristóteles seria realmente capaz de eliminar a maldade? Ou será que Sócrates conseguiria convencer aos maus pela lógica que os caminhos inglórios não valem a pena. Ou será ainda, como sugeriu Félix na cena acima, que a psicoterapia seria capaz de tornar honesto um sujeito torto? 


Laranja mecânica, 1971
Outros filmes e livros também abordam a questão da possível recuperação da delinquência. Um dos mais famosos é o Laranja Mecânica.

No fim da história de Shakespeare, Edmundo tenta se redimir fazendo seu único ato bom na história:

Edmundo: Anseio pela vida; quero fazer algo de bom a despeito de minha natureza... Depressa mandem alguém ao castelo...Não percam tempo...eu dei ordem...escrevi...condenado à morte Cordélia e o Rei. Corram enquanto é tempo. (ATO V, CENA III, p.136)

Fernando Savater, em seu livro A importância da escolha, tem uma frase interessante sobre a liberdade de escolher entre fazer o bem ou o mal, ou por a culpa nas circunstâncias ou no genoma: 

“O curioso dessas próteses que aliviam a responsabilidade é que funcionam só para a culpa, jamais para o mérito. Nenhum ganhador do Prêmio Nobel ou alpinista que chega ao cume do Everest dilui o fulgor de sua façanha atribuindo-a as suas condições sociais ou à sua feliz dotação genética: foram eles mesmos, contra ventos e marés adversos, quem estudaram, quem esforçaram, derrotaram a incompreensão e as dificuldades, etc. Somo excelentes graças a nós mesmos, mas somos maus e deficientes apesar de nós mesmos.” (p. 70)

Edmundo e Félix possuem vários pontos em comum: filhos relegados pelos pais, inveja dos irmãos, a ambição de conseguir seus objetivos por meios ilegais e sem escrúpulos, noção reduzida do perigo, pois armam seus golpes e mentiras, com a certeza de não serem punidos, e o desejo de poder que os guia a querer cada vez mais. Esses dois personagens que nasceram "desprivilegiados", teriam tudo para se tornarem vítimas, mas resolveram tornarem-se algozes. 

E por último, a reportagem da revista Época nos lembra de que biologia não é destino, pois ainda nenhum cientista ou filósofo conseguiu desvendar totalmente o que se passa nos territórios mais escuros da alma humana.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Retrato de Dorian Gray - Prefácio

Crédito da imagem:
diariodeumadiretora.blogspot.com.br
"O artista é o criador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte. O crítico é aquele que sabe traduzir de outra maneira ou com material diferente a sua impressão das coisas belas. A mais alta, assim como a mais baixa, forma de crítica é uma autobiografia. Aqueles que encontram feias significações nas coisas belas são corruptos sem serem encantadores. É um defeito. Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança. São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza. Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais. A antipatia do século XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho. A antipatia do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho. A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar o que quer que seja. Até as coisas verdadeiras se podem provar. Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo. O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo. O pensamento e a linguagem são para o artista instrumento de arte. O vício e a virtude são para o artista materiais de arte. Sob o ponto de vista da forma, o tipo de todas as artes é a arte do músico. Sob o ponto de vista do sentimento, o tipo é a profissão do actor. Toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Aqueles que descem além da superfície fazem-no com risco seu. O mesmo sucede àqueles que lêem o símbolo. É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte. A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital. Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo."


Oscar Wilde – Prefácio de "O retrato de Dorian Gray". O retrato de Dorian Gray. Tradução de Lígia Junqueira. 2. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012. p.5

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Rei Lear – William Shakespeare

Confraria filosófica – 04/08/2013

Alguns pontos discutidos no encontro:

1- Edmundo zomba que quem acredita que os astros influenciam na personalidade do homem, ele acredita que seria tão maldoso quanto é mesmo que tivesse nascido na lua mais cândida.

2 – Edmundo diz que a natureza é sua deusa, isto é, a natureza do mais forte, do mais esperto, daquele que pode mais sobre os demais.

3 – A burrice da velhice de Lear, o orgulho e a arrogância de sua personalidade, pois não aceita ser aconselhado por Kent. A credulidade de Gloucester em seu filho bastardo. A falta de desconfiança desses dois pais, que acreditaram serem enganados por seus filhos favoritos (Cordélia e Edgar).

4 – A maldade de Edmundo que se assemelha a outras peças de Shakespeare, como Ricardo III.

5 – A valorização da hipocrisia na corte de Lear, e a ambição sem limites de suas filhas desnaturadas.
 Imagem retirada daqui: http://goo.gl/XQmrHG
6 – Cordélia ao não se pronunciar devidamente como o pai esperava foi teimosa e infantil ou sofreu apenas por sua falta de jeito, inteligência e maturidade para se expressar como convinha? Cordélia não era casada como suas irmãs, era a mais nova e inexperiente, contava apenas com o auxílio de sua ama.

7 – Política, poder e bajulação andam sempre juntos.

8 – Drama pessoal de sucessão hierárquica que todo homem rico e poderoso passa, não apenas o rei Lear, mas também Gloucester.

9 – Presença forte de mulheres gananciosas, inescrupulosas e políticas, as irmãs Goneril e Regana se assemelham a Lady Macbeth. Desejo pelo poder e maldade independem de gênero.

Raul Cortez - Rei Lear (2000)
Imagem retirada daqui: http://goo.gl/9D6O5t
10 – Kent é o herói da trama, pois reúne a bondade e inteligência, Cordélia apesar de bondosa não é esperta o suficiente para reverter a situação de seu pai. Edgar é esperto o suficiente para fugir e se disfarçar quando é caluniado, e salva o pai do suicídio. Por suas qualidades, esperteza e lealdade, apenas Kent e Edgar sobrevivem no fim da trama. Shakespeare contraria a lógica de Edmundo, quem sobrevive em tempos de desgraça não são mais fortes, mas sim os bons e inteligentes.

11- Em “Ética a Nicômaco” Aristóteles dizia que a ética não poderia ser discutida com jovens porque estes não tem experiência de vida suficiente para fazer julgamos de ética. Já em Shakespeare os velhos não sábios, como geralmente se espera, os velhos são cometem erros (Lear) e são enganados (Gloucester).

12 – Lear e o drama de não saber distinguir os afetos verdadeiros, diferenciar os amigos dos inimigos, em qualquer idade isso traz tragédia e desgraça.

13 – Lear quer se livrar da responsabilidade do poder, mas sem abdicar de seus privilégios e prestígios de monarca, mas quando deixa o poder só sobram os afetos verdadeiros (Cordélia, Kent, Gloucester), porém Lear é incapaz de reeguer-se do tombo que causou a si mesmo, a idade avançada e a decepção o levam a loucura.

14 – Na peça acontece a morte dos “pecaminosos” e dos “burros”, pois Lear altera a ordem natural das coisas, quando o rei não é o mais sábio, não há outra solução senão a morte para pôr fim a tragédia, e então haver o recomeço, dando início a um novo ciclo. Quando falta um líder política legítimo e digno é o caos. Edgar e Kent são os sobreviventes para um mundo melhor.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Heróis e História

Esta crônica de Luis Fernando Veríssimo sobre a história, é veladamente a visão marxista (materialismo histórico), e como brevíssima introdução, recomendo como base para uma interpretação marxista frisada por Patrícia Sanches sobre Rei Lear.

Heróis e História - Luis Fernando Veríssimo

Velha questão: são os homens providenciais que fazem a História ou é a História que os providencia? Estou pensando no Mandela. Ele sem dúvida fez história, mas o apartheid teria se mantido mesmo sem a resistência dramatizada na sua prisão e no seu sacrifício? Provavelmente não. Martin Luther King simbolizou a luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos, empolgou e inspirou muita gente, mas a injustiça flagrante da segregação racial estaria condenada mesmo sem seus discursos e seu exemplo. Frequentei uma "high school" americana durante três anos e todos os dias, antes de começarem as aulas, botava a mão sobre o coração e prometia lealdade à bandeira aos Estados Unidos da América a à república que ela representava, com liberdade e justiça para todos, e certamente não era só eu que completava, em silêncio, o juramento: "...exceto para os negros". Durante anos a democracia americana conviveu com imagens de discriminação racista, linchamentos e outra violência contra negros no sul do país. Variava apenas o grau de consciência em cada um da hipocrisia desta convivência cega. O que Martin Luther King fez foi tornar a consciência universal e a hipocrisia visível, e insuportável. Mas a justiça para todos viria - ou virá, ou tomara que venha, numa América ainda dividida pela questão racial, como mostra a revolta pela absolvição recente do assassino daquele garoto negro na Flórida - mesmo sem a sua retórica.

Gandhi liderou o movimento de resistência pacífica que ajudou a liberar a Índia do domínio inglês. Há figuras como Gandhi - mais ou menos pacíficas - em quase todas as histórias de liberação do jugo colonialista. Mas por mais atraente que seja a ideia de heróis emancipadores derrotando impérios, a verdade é que eles serviram uma inevitabilidade histórica, independente da sua bravura, do seu discurso ou, como Gandhi, do seu apelo espiritual. O poder da História de fazer acontecer o necessário, à revelia da iniciativa humana, soa como ortodoxia marxista, eu sei, mas consolemo-nos com a ideia de que a História pode nos ignorar, mas está do nosso lado.

E dito tudo isto é preciso dizer que poucas coisas na vida me emocionaram tanto quanto a aparição do Mandela antes do jogo final da Copa do Mundo na África do Sul, ovacionado pela multidão. Consequente ou não, ali estava um herói.

sábado, 27 de julho de 2013

O escravo, o pobre, o feio e a tal felicidade



O escravo, o pobre, o feio e a tal felicidade


O romântico: "Dinheiro não traz felicidade".
O cínico: "Mas manda buscar!"

A relação do dinheiro com a felicidade não é uma questão nova, 350 anos a.C., em Ética a Nicômaco, Aristóteles indicava o consenso no qual os desafortunados e os feios dificilmente seriam felizes. Quanto aos escravos, a possibilidade seria nula. Vou me ater somente aos desafortunados e aos escravos, a questão "os feios e a felicidade" deixo como sugestão aos interessados.


Autonomia - chave para a felicidade

Se em Aristóteles a felicidade é o maior bem, posto que ela é o único bem com um fim em si mesmo, vejo então o dinheiro como o símbolo de todos os prazeres, o suprassumo da representação destes por poder comprar a todos praticamente. Pelo fascínio e domínio que exerce, é para muitos a própria felicidade.

Aristóteles se aproxima mais de Epicuro (341-269 a.C.) do que ao cínico, este também reconhecia a necessidade da autossuficiência, mas em um nível menos exigente de consumo. Epicuro advogava que pão e água é uma excelente refeição, buscava a autossuficiência numa espécie de comunidade alternativa (Jardim), onde procurava prover de tudo o que fosse minimamente necessário. Para Epicuro "o melhor da autossuficiência é a liberdade".

Nesse contexto, o cínico encontra apoio em Aristóteles em parte:

"as pessoas não precisam de muitas e grandes coisas para ser felizes, simplesmente por que não podem ser felizes sem bens exteriores: com efeito, a autossuficiência e a ação não pressupõe  excesso". Ética a Nicômaco, Livro 10.


Para a autossuficiência e a autonomia é só para isto que serve o dinheiro, condições que não são possíveis ao escravo. O dinheiro nos dá autossuficiência para não nos preocuparmos com coisas básicas, como alimentação, mas ser afortunado e, portanto, autônomo financeiramente, não é sair por aí comprando coisas. Nos é caro dizer ao dinheiro - e a todos os prazeres que ele compra - que somos seu dono ou ainda algo do tipo: "Não dependo somente de ti para ser feliz!". Aos duros e desafortunados vai parecer piada por o dinheiro não lhe ser muito familiar. A questão da autonomia vai além do dinheiro em si. 



Ter dinheiro e todos os prazeres que este pode proporcionar não é ruim, o ruim é ser dependente e escravo deste e de qualquer prazer. A autonomia apontada por Aristóteles se relaciona à dependência dos prazeres, do apego aos "belos corpos gregos", ao irresistível sorvete de chocolate supreme suíço. Do sexo à gula e a outros prazeres. Seguir o caminho a que nos propusemos e não nos desviarmos dele, recusando os prazeres mais imediatos, exige uma autonomia de espírito, de caráter e de conduta, que não se conquista de imediato. O mal não está em ter desejo, mas em deixar-se ser engolido por ele.

"A vida é feita de escolhas", é o ditado popular. Em Aristóteles a conduta autônoma é possível de ser conseguida com a prática e a análise constante da melhor escolha em todas as situações em que nos envolvemos diariamente, que é o caminho da moderação. Estas escolhas são resultado de uma vida de constante análise de nossos hábitos. A partir do momento em que exigimos e deixamos a razão dominar as nossas escolhas em busca da melhor resposta para cada situação, estas passam a ser quase que automáticas, pois são resultado de uma razão que poucos são capazes de exercer senão o  verdadeiro sábio. 

Em seu manual de ética, Aristóteles reconhece essa dificuldade: 

"se palavras bastassem para que nos tornássemos bons, elas teriam com justiça obtido grandes recompensas (...) e deveríamos ter as palavras sempre à disposição". 

A virtude do uso dessa razão é o que aproxima o sábio dos deuses.

"As pessoas que usam sua própria razão e a cultivam parecem ter o espírito nas melhores condições e ser mais queridas pelos deuses. De fato, se os deuses se interessam de algum modo pelos assuntos humanos, como geralmente se crê, é razoável imaginar que aquilo que é melhor e tem mais afinidades com eles (isto é, a razão) lhes dê prazer..., e quem estiver nestas condições será provavelmente mais feliz." Sendo assim, o sábio é o homem mais feliz.

Num possível diálogo entre o sábio aristotélico, o romântico e o cínico, ele não concordaria com nenhum dos dois e apontaria o caminho da moderação.


O romântico: Dinheiro não traz felicidade. 
O cínico: Mas manda buscar!
O sábio aristotélico: Não manda buscar, a ele não devemos nos escravizar, assim como a todos os prazeres. É um caminho para a autonomia e desta para a felicidade.

domingo, 27 de maio de 2012

Amar o impossível

 
"Sempre é e nunca vem a ser ou perece, nem cresce ou decresce, e não é belo em um sentido e feio em outro, nem belo em um momento e feio em outro, nem belo em relação a alguma coisa e feio em relação a alguma outra, nem belo em um lugar e feio em outro, como seria se fosse belo para uns e feio para outros..." Banquete, de Platão.


Amor idealizado

Numa visão popular, o Amor platônico é tido como o amor idealizado, inalcançável, vinculado a um amor espiritual. Vejo-o como metáfora do amor que leva ao conhecimento da verdade e da essência em correspondência ao mito da caverna e ao sistema filosófico de Platão que divide o mundo entre o sensível e o invisível. É um amor direcionado à Filosofia.

Descobrir o amor que vale a pena ser vivido é sair da caverna e descobrir a verdade, o real, o mundo invisível. É sair das amarras deste mundo de sombras (sensível), e, esta realização, é para iluminados. No Banquete, nem mesmo Sócrates seria capaz.

Platão defendia que o Verdadeiro Amor nunca deveria ser concretizado, pois quando se ama tende-se a cultuar a pessoa amada com as virtudes do que é perfeito. Quando esse amor é concretizado, não raro aparecem os nativos defeitos de caráter da pessoa amada. O amor é carente e busca no ser amado aquilo que sente falta ou não tem.

"E por ser filho o Amor de Recurso e da Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primei-ramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar. Sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, ás portas e nos caminhos, por que tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. [...] ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações..." Banquete. Platão

A idealização decorre dessa carência. 

- Amor não é amor do belo, como pensas.
- O que é então?
- Da reprodução e da geração do belo

Banquete. Platão

Hegel, quase se apropriando do conceito do amor platônico como amor da carência, afirma que ela é parte constitutiva do ser que carece. É parte do amante. 


Amor entre homens


Schopenhauer, em sua "Metafísica do amor", acusa o amor platônico de ser um amor somente entre homens e insuficiente para explicar a questão do amor em um sentido mais amplo. Sua conclusão é que o amor é fruto do impulso de vida na preservação da espécie humana.

Ainda, justamente por sua acepção homossexual, o Amor platônico, compreendido como algo elevado, ligado à alma e por não destinar-se a procriação é posto em contraposição ao amor socrático, que seria aquele referente à pederastia ou à atração erótica do mestre por seu discípulo.

No Banquete, das várias proposições para o amor apresentadas ali, quase todas enfatizam elementos homossexuais. Da proposição da origem da Afrodite Urânica, passando pela definição de Aristófanes sobre a alegoria dos corpos divididos tentando se reencontrar, ao fecho dado por Sócrates da lição de Miotia para a apreciação dos belos corpos dos jovens como percurso para apreciação futura do verdadeiro Belo ideal.


Platão nos dias de hoje

O Amor platônico, idealizado como o mais puro e esplendoroso, adquire, a cada época, uma nova acepção.

Na era medieval, com os padres neoplatônicos, relacionavam-no com o amor a Deus, por ser o mais elevado de todos. E ainda temos os trovadores com suas cantigas de amor e de amigo cuja temática é a de um amor impossível.

A era romântica é o auge do Amor platônico. A amada idealizada é pura, o coito é um absurdo. O amante morre sem nem tocar a pele da amada, sendo indigno de tamanha ventura!

Na contemporaneidade, apesar do pragmatismo do capitalismo, definindo até as relações amorosas, o sonho do amor dos contos de fadas ainda permeia nosso imaginário, principal-mente o feminino. Essa mistura de amor romântico/platônico com amor real traz uma discussão eterna sobre o que é o verdadeiro amor.

Vivemos uma "platonomania" em tempos de vampiros e lobisomens apaixonados, de Nicholas Sparks e seus contos de fadas modernos para mulheres adolescentes, sem falar da música emo "chorando" aos berros amores complicados e impossíveis em nossos ouvidos. 

Mesmo na época da geração do "ficar" e dos amores líquidos, ainda encontramos espaço para o amor idealizadamente impossível. Platão nos é uma sombra.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Estrangeiro

Crédito da imagem: http://migre.me/fNo9b
Meursault é o personagem marcado pela indiferença a tudo. Todas as situações lhe são “naturais”, no sentido de que é próprio da natureza humana. Meursault perdeu o sentido de indignação diante dos acontecimentos absurdos da vida e da morte. Acredito que todas as pessoas já sentiram (e sentem) indiferença em suas vidas, mas o que torna Meursault diferente é a sua indiferença a tudo. O personagem encara tudo com uma lucidez invejável, mas também com uma frieza assombrosa. Ainda que Meursault se diga, em suas reflexões, igual a todo mundo, ele é diferente, ‘um estrangeiro’, o exagero de sua indiferença o torna quase um mito ou uma lenda. Apesar de sua indiferença, Meursault, no encontro não deixou nenhum confrareiro indiferente. As opiniões se alternaram entre herói e psicopata. O primeiro (herói) por ter coragem de assumir mesmo em ambiente hostil a sua maneira racional de encarar a vida e o segundo (psicopata) por não parecer ter mais sentimentos. Paixão, sofrimento ou culpa não são demonstrados pelo personagem, suas emoções são sensoriais - o prazer com Marie - e mesmo primárias – comer, dormir, fumar. A indiferença de Meursault chega até a ser para consigo mesmo. Meursault identifica-se com o universo ao qual nada abala ou comove, e que existe em placidez independentemente do que aconteça.

Foi dito em nosso encontro que Meursault é um personagem criado para exemplificar a teoria do autor, Albert Camus, sobre os absurdos, que é um tema estudado pelo Existencialismo, embora o próprio Camus rejeite este rótulo de sua obra. O estrangeiro faz parte de uma trilogia criada por Camus sobre o tema do absurdo, que é quando as relações causais – causa e consequência – não tem sentido ou não existem.

Mesmo sendo indiferente aos absurdos da vida, Meursault não está imune a eles, isso fica evidente em seu julgamento, quando se acha injustiçado por ter sido condenado a pena de morte mais por “não ter chorado no enterro da mãe do que do que por ter matado um homem”. A incoerência do julgamento e o infeliz “acaso” que lhe fez matar o árabe quebram o equilíbrio da vida de Meursault.

Meursault é uma personagem dúbia, ora é possível se identificar com ele, ora sua indiferença parece uma inocente loucura. Ele não admite esperanças de felicidade além do mundo conhecido nem para si ou para outros. “Todos são privilegiados”, ele diz, que é outro jeito de dizer que ninguém o é. A condição humana nivela a todos da mesma condenação: a morte.

Mas também Meursault encontra redenção, de certa forma, na prisão pouco antes de morrer ele tem a real noção do rumo que sua vida irá tomar. Um dos textos lidos no encontro diz que Meursault não joga o jogo da sociedade, por isso ele seria o estrangeiro, alguém semelhante, mas que desobedece ou ignora as regras elementares da sociedade.

Os mais entusiastas com Meursault disseram que ele era lúcido, honesto e honrou as próprias convicções. Já os mais pessimistas viram com ressalvas todas estas atitudes, dizendo que Meursault foi o vilão de si mesmo. Alguém que decide viver a margem dos costumes e hipocrisias da sociedade arcará com as consequências. Meursault no fim é condenado à morte, mas nos últimos instantes desta diz-se preparado para vivê-la novamente.

Mesmo que Meursault não possa ser considerado maldoso, seus atos são no mínimo antipáticos – antipáticos: falta de empatia em Meursault pelas outras pessoas, ele jamais se coloca no lugar dos outros, ele só compreende o que é “natural” do homem. O acaso tão citado como agente dos acontecimentos é algo tão misterioso quando imprevisível.

Há uma passagem no livro em que Meursault admite que suas emoções são atrapalhadas pelas suas necessidades. No enterro de sua mãe ele admite ter vontade de dormir e não perceber direito o que se passava diante de si. Nessa parte crucial da história Meursault é coerente com sua filosofia de vida, ele não sente pena de quem morreu porque não sente pena nem de si mesmo. O processo de luto é, acredito eu, um pouco pela infelicidade do morto, mas também pela nossa própria infelicidade ao morrer.

A história do estrangeiro mostra a irracionalidade da racionalidade, tanto em Meursault cuja toda lucidez não o salva da decapitação e durante o julgamento onde as justificativas para a condenação são incoerentes com o crime.

Pode-se dizer que Meursault não é um personagem “real”, porque ele é um extremo, por um lado ele representa a indiferença que habita dentro de casa um de nós e por outro a desumanização da racionalidade excessiva.

Sinceramente ainda não tenho certeza se entendi o que Camus quis dizer com esta história, mas para mim é que diante dos absurdos da vida, há maneiras absurdas de se comportar (como Meursault), mas que principalmente há absurdos causados por nós mesmos acontecendo e se repetindo em nosso cotidiano.

Questionei-me se Meursault não estaria morto por dentro, pois alguém sem ambições como ele, que se acostuma com todas as situações, alguém que não tem ganas ou fome, alguém pra quem tudo tanto-faz-tanto-fez, é alguém que não usa sua potência transformadora. Meursault é indiferente porque não acha que ele faça diferença na vida dos outros, assim como os outros não fazem diferença na sua.

No mundo “natural” de Meursault não há espaço para nenhum sentimento, só necessidades primárias. Acredito que Meursault viveu sendo apenas meio homem, ele é também o que o homem gostaria de ser idealmente: totalmente racional, excluindo qualquer sentimento. Mas isso não é possível por dois motivos, primeiro por que ser totalmente racional não é ser humano e depois porque o mundo não é totalmente racional, como geralmente se pressupõe, muito pelo contrário há incoerências e absurdos insolucionáveis aos quais a racionalidade não da conta de explicar, do mesmo modo que mais nada resolve O Mistério do Mundo.