terça-feira, 6 de agosto de 2013

Rei Lear – William Shakespeare

Confraria filosófica – 04/08/2013

Alguns pontos discutidos no encontro:

1- Edmundo zomba que quem acredita que os astros influenciam na personalidade do homem, ele acredita que seria tão maldoso quanto é mesmo que tivesse nascido na lua mais cândida.

2 – Edmundo diz que a natureza é sua deusa, isto é, a natureza do mais forte, do mais esperto, daquele que pode mais sobre os demais.

3 – A burrice da velhice de Lear, o orgulho e a arrogância de sua personalidade, pois não aceita ser aconselhado por Kent. A credulidade de Gloucester em seu filho bastardo. A falta de desconfiança desses dois pais, que acreditaram serem enganados por seus filhos favoritos (Cordélia e Edgar).

4 – A maldade de Edmundo que se assemelha a outras peças de Shakespeare, como Ricardo III.

5 – A valorização da hipocrisia na corte de Lear, e a ambição sem limites de suas filhas desnaturadas.
 Imagem retirada daqui: http://goo.gl/XQmrHG
6 – Cordélia ao não se pronunciar devidamente como o pai esperava foi teimosa e infantil ou sofreu apenas por sua falta de jeito, inteligência e maturidade para se expressar como convinha? Cordélia não era casada como suas irmãs, era a mais nova e inexperiente, contava apenas com o auxílio de sua ama.

7 – Política, poder e bajulação andam sempre juntos.

8 – Drama pessoal de sucessão hierárquica que todo homem rico e poderoso passa, não apenas o rei Lear, mas também Gloucester.

9 – Presença forte de mulheres gananciosas, inescrupulosas e políticas, as irmãs Goneril e Regana se assemelham a Lady Macbeth. Desejo pelo poder e maldade independem de gênero.

Raul Cortez - Rei Lear (2000)
Imagem retirada daqui: http://goo.gl/9D6O5t
10 – Kent é o herói da trama, pois reúne a bondade e inteligência, Cordélia apesar de bondosa não é esperta o suficiente para reverter a situação de seu pai. Edgar é esperto o suficiente para fugir e se disfarçar quando é caluniado, e salva o pai do suicídio. Por suas qualidades, esperteza e lealdade, apenas Kent e Edgar sobrevivem no fim da trama. Shakespeare contraria a lógica de Edmundo, quem sobrevive em tempos de desgraça não são mais fortes, mas sim os bons e inteligentes.

11- Em “Ética a Nicômaco” Aristóteles dizia que a ética não poderia ser discutida com jovens porque estes não tem experiência de vida suficiente para fazer julgamos de ética. Já em Shakespeare os velhos não sábios, como geralmente se espera, os velhos são cometem erros (Lear) e são enganados (Gloucester).

12 – Lear e o drama de não saber distinguir os afetos verdadeiros, diferenciar os amigos dos inimigos, em qualquer idade isso traz tragédia e desgraça.

13 – Lear quer se livrar da responsabilidade do poder, mas sem abdicar de seus privilégios e prestígios de monarca, mas quando deixa o poder só sobram os afetos verdadeiros (Cordélia, Kent, Gloucester), porém Lear é incapaz de reeguer-se do tombo que causou a si mesmo, a idade avançada e a decepção o levam a loucura.

14 – Na peça acontece a morte dos “pecaminosos” e dos “burros”, pois Lear altera a ordem natural das coisas, quando o rei não é o mais sábio, não há outra solução senão a morte para pôr fim a tragédia, e então haver o recomeço, dando início a um novo ciclo. Quando falta um líder política legítimo e digno é o caos. Edgar e Kent são os sobreviventes para um mundo melhor.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Heróis e História

Esta crônica de Luis Fernando Veríssimo sobre a história, é veladamente a visão marxista (materialismo histórico), e como brevíssima introdução, recomendo como base para uma interpretação marxista frisada por Patrícia Sanches sobre Rei Lear.

Heróis e História - Luis Fernando Veríssimo

Velha questão: são os homens providenciais que fazem a História ou é a História que os providencia? Estou pensando no Mandela. Ele sem dúvida fez história, mas o apartheid teria se mantido mesmo sem a resistência dramatizada na sua prisão e no seu sacrifício? Provavelmente não. Martin Luther King simbolizou a luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos, empolgou e inspirou muita gente, mas a injustiça flagrante da segregação racial estaria condenada mesmo sem seus discursos e seu exemplo. Frequentei uma "high school" americana durante três anos e todos os dias, antes de começarem as aulas, botava a mão sobre o coração e prometia lealdade à bandeira aos Estados Unidos da América a à república que ela representava, com liberdade e justiça para todos, e certamente não era só eu que completava, em silêncio, o juramento: "...exceto para os negros". Durante anos a democracia americana conviveu com imagens de discriminação racista, linchamentos e outra violência contra negros no sul do país. Variava apenas o grau de consciência em cada um da hipocrisia desta convivência cega. O que Martin Luther King fez foi tornar a consciência universal e a hipocrisia visível, e insuportável. Mas a justiça para todos viria - ou virá, ou tomara que venha, numa América ainda dividida pela questão racial, como mostra a revolta pela absolvição recente do assassino daquele garoto negro na Flórida - mesmo sem a sua retórica.

Gandhi liderou o movimento de resistência pacífica que ajudou a liberar a Índia do domínio inglês. Há figuras como Gandhi - mais ou menos pacíficas - em quase todas as histórias de liberação do jugo colonialista. Mas por mais atraente que seja a ideia de heróis emancipadores derrotando impérios, a verdade é que eles serviram uma inevitabilidade histórica, independente da sua bravura, do seu discurso ou, como Gandhi, do seu apelo espiritual. O poder da História de fazer acontecer o necessário, à revelia da iniciativa humana, soa como ortodoxia marxista, eu sei, mas consolemo-nos com a ideia de que a História pode nos ignorar, mas está do nosso lado.

E dito tudo isto é preciso dizer que poucas coisas na vida me emocionaram tanto quanto a aparição do Mandela antes do jogo final da Copa do Mundo na África do Sul, ovacionado pela multidão. Consequente ou não, ali estava um herói.

sábado, 27 de julho de 2013

O escravo, o pobre, o feio e a tal felicidade



O escravo, o pobre, o feio e a tal felicidade


O romântico: "Dinheiro não traz felicidade".
O cínico: "Mas manda buscar!"

A relação do dinheiro com a felicidade não é uma questão nova, 350 anos a.C., em Ética a Nicômaco, Aristóteles indicava o consenso no qual os desafortunados e os feios dificilmente seriam felizes. Quanto aos escravos, a possibilidade seria nula. Vou me ater somente aos desafortunados e aos escravos, a questão "os feios e a felicidade" deixo como sugestão aos interessados.


Autonomia - chave para a felicidade

Se em Aristóteles a felicidade é o maior bem, posto que ela é o único bem com um fim em si mesmo, vejo então o dinheiro como o símbolo de todos os prazeres, o suprassumo da representação destes por poder comprar a todos praticamente. Pelo fascínio e domínio que exerce, é para muitos a própria felicidade.

Aristóteles se aproxima mais de Epicuro (341-269 a.C.) do que ao cínico, este também reconhecia a necessidade da autossuficiência, mas em um nível menos exigente de consumo. Epicuro advogava que pão e água é uma excelente refeição, buscava a autossuficiência numa espécie de comunidade alternativa (Jardim), onde procurava prover de tudo o que fosse minimamente necessário. Para Epicuro "o melhor da autossuficiência é a liberdade".

Nesse contexto, o cínico encontra apoio em Aristóteles em parte:

"as pessoas não precisam de muitas e grandes coisas para ser felizes, simplesmente por que não podem ser felizes sem bens exteriores: com efeito, a autossuficiência e a ação não pressupõe  excesso". Ética a Nicômaco, Livro 10.


Para a autossuficiência e a autonomia é só para isto que serve o dinheiro, condições que não são possíveis ao escravo. O dinheiro nos dá autossuficiência para não nos preocuparmos com coisas básicas, como alimentação, mas ser afortunado e, portanto, autônomo financeiramente, não é sair por aí comprando coisas. Nos é caro dizer ao dinheiro - e a todos os prazeres que ele compra - que somos seu dono ou ainda algo do tipo: "Não dependo somente de ti para ser feliz!". Aos duros e desafortunados vai parecer piada por o dinheiro não lhe ser muito familiar. A questão da autonomia vai além do dinheiro em si. 



Ter dinheiro e todos os prazeres que este pode proporcionar não é ruim, o ruim é ser dependente e escravo deste e de qualquer prazer. A autonomia apontada por Aristóteles se relaciona à dependência dos prazeres, do apego aos "belos corpos gregos", ao irresistível sorvete de chocolate supreme suíço. Do sexo à gula e a outros prazeres. Seguir o caminho a que nos propusemos e não nos desviarmos dele, recusando os prazeres mais imediatos, exige uma autonomia de espírito, de caráter e de conduta, que não se conquista de imediato. O mal não está em ter desejo, mas em deixar-se ser engolido por ele.

"A vida é feita de escolhas", é o ditado popular. Em Aristóteles a conduta autônoma é possível de ser conseguida com a prática e a análise constante da melhor escolha em todas as situações em que nos envolvemos diariamente, que é o caminho da moderação. Estas escolhas são resultado de uma vida de constante análise de nossos hábitos. A partir do momento em que exigimos e deixamos a razão dominar as nossas escolhas em busca da melhor resposta para cada situação, estas passam a ser quase que automáticas, pois são resultado de uma razão que poucos são capazes de exercer senão o  verdadeiro sábio. 

Em seu manual de ética, Aristóteles reconhece essa dificuldade: 

"se palavras bastassem para que nos tornássemos bons, elas teriam com justiça obtido grandes recompensas (...) e deveríamos ter as palavras sempre à disposição". 

A virtude do uso dessa razão é o que aproxima o sábio dos deuses.

"As pessoas que usam sua própria razão e a cultivam parecem ter o espírito nas melhores condições e ser mais queridas pelos deuses. De fato, se os deuses se interessam de algum modo pelos assuntos humanos, como geralmente se crê, é razoável imaginar que aquilo que é melhor e tem mais afinidades com eles (isto é, a razão) lhes dê prazer..., e quem estiver nestas condições será provavelmente mais feliz." Sendo assim, o sábio é o homem mais feliz.

Num possível diálogo entre o sábio aristotélico, o romântico e o cínico, ele não concordaria com nenhum dos dois e apontaria o caminho da moderação.


O romântico: Dinheiro não traz felicidade. 
O cínico: Mas manda buscar!
O sábio aristotélico: Não manda buscar, a ele não devemos nos escravizar, assim como a todos os prazeres. É um caminho para a autonomia e desta para a felicidade.

domingo, 27 de maio de 2012

Amar o impossível

 
"Sempre é e nunca vem a ser ou perece, nem cresce ou decresce, e não é belo em um sentido e feio em outro, nem belo em um momento e feio em outro, nem belo em relação a alguma coisa e feio em relação a alguma outra, nem belo em um lugar e feio em outro, como seria se fosse belo para uns e feio para outros..." Banquete, de Platão.


Amor idealizado

Numa visão popular, o Amor platônico é tido como o amor idealizado, inalcançável, vinculado a um amor espiritual. Vejo-o como metáfora do amor que leva ao conhecimento da verdade e da essência em correspondência ao mito da caverna e ao sistema filosófico de Platão que divide o mundo entre o sensível e o invisível. É um amor direcionado à Filosofia.

Descobrir o amor que vale a pena ser vivido é sair da caverna e descobrir a verdade, o real, o mundo invisível. É sair das amarras deste mundo de sombras (sensível), e, esta realização, é para iluminados. No Banquete, nem mesmo Sócrates seria capaz.

Platão defendia que o Verdadeiro Amor nunca deveria ser concretizado, pois quando se ama tende-se a cultuar a pessoa amada com as virtudes do que é perfeito. Quando esse amor é concretizado, não raro aparecem os nativos defeitos de caráter da pessoa amada. O amor é carente e busca no ser amado aquilo que sente falta ou não tem.

"E por ser filho o Amor de Recurso e da Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primei-ramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar. Sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, ás portas e nos caminhos, por que tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. [...] ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações..." Banquete. Platão

A idealização decorre dessa carência. 

- Amor não é amor do belo, como pensas.
- O que é então?
- Da reprodução e da geração do belo

Banquete. Platão

Hegel, quase se apropriando do conceito do amor platônico como amor da carência, afirma que ela é parte constitutiva do ser que carece. É parte do amante. 


Amor entre homens


Schopenhauer, em sua "Metafísica do amor", acusa o amor platônico de ser um amor somente entre homens e insuficiente para explicar a questão do amor em um sentido mais amplo. Sua conclusão é que o amor é fruto do impulso de vida na preservação da espécie humana.

Ainda, justamente por sua acepção homossexual, o Amor platônico, compreendido como algo elevado, ligado à alma e por não destinar-se a procriação é posto em contraposição ao amor socrático, que seria aquele referente à pederastia ou à atração erótica do mestre por seu discípulo.

No Banquete, das várias proposições para o amor apresentadas ali, quase todas enfatizam elementos homossexuais. Da proposição da origem da Afrodite Urânica, passando pela definição de Aristófanes sobre a alegoria dos corpos divididos tentando se reencontrar, ao fecho dado por Sócrates da lição de Miotia para a apreciação dos belos corpos dos jovens como percurso para apreciação futura do verdadeiro Belo ideal.


Platão nos dias de hoje

O Amor platônico, idealizado como o mais puro e esplendoroso, adquire, a cada época, uma nova acepção.

Na era medieval, com os padres neoplatônicos, relacionavam-no com o amor a Deus, por ser o mais elevado de todos. E ainda temos os trovadores com suas cantigas de amor e de amigo cuja temática é a de um amor impossível.

A era romântica é o auge do Amor platônico. A amada idealizada é pura, o coito é um absurdo. O amante morre sem nem tocar a pele da amada, sendo indigno de tamanha ventura!

Na contemporaneidade, apesar do pragmatismo do capitalismo, definindo até as relações amorosas, o sonho do amor dos contos de fadas ainda permeia nosso imaginário, principal-mente o feminino. Essa mistura de amor romântico/platônico com amor real traz uma discussão eterna sobre o que é o verdadeiro amor.

Vivemos uma "platonomania" em tempos de vampiros e lobisomens apaixonados, de Nicholas Sparks e seus contos de fadas modernos para mulheres adolescentes, sem falar da música emo "chorando" aos berros amores complicados e impossíveis em nossos ouvidos. 

Mesmo na época da geração do "ficar" e dos amores líquidos, ainda encontramos espaço para o amor idealizadamente impossível. Platão nos é uma sombra.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Estrangeiro

Crédito da imagem: http://migre.me/fNo9b
Meursault é o personagem marcado pela indiferença a tudo. Todas as situações lhe são “naturais”, no sentido de que é próprio da natureza humana. Meursault perdeu o sentido de indignação diante dos acontecimentos absurdos da vida e da morte. Acredito que todas as pessoas já sentiram (e sentem) indiferença em suas vidas, mas o que torna Meursault diferente é a sua indiferença a tudo. O personagem encara tudo com uma lucidez invejável, mas também com uma frieza assombrosa. Ainda que Meursault se diga, em suas reflexões, igual a todo mundo, ele é diferente, ‘um estrangeiro’, o exagero de sua indiferença o torna quase um mito ou uma lenda. Apesar de sua indiferença, Meursault, no encontro não deixou nenhum confrareiro indiferente. As opiniões se alternaram entre herói e psicopata. O primeiro (herói) por ter coragem de assumir mesmo em ambiente hostil a sua maneira racional de encarar a vida e o segundo (psicopata) por não parecer ter mais sentimentos. Paixão, sofrimento ou culpa não são demonstrados pelo personagem, suas emoções são sensoriais - o prazer com Marie - e mesmo primárias – comer, dormir, fumar. A indiferença de Meursault chega até a ser para consigo mesmo. Meursault identifica-se com o universo ao qual nada abala ou comove, e que existe em placidez independentemente do que aconteça.

Foi dito em nosso encontro que Meursault é um personagem criado para exemplificar a teoria do autor, Albert Camus, sobre os absurdos, que é um tema estudado pelo Existencialismo, embora o próprio Camus rejeite este rótulo de sua obra. O estrangeiro faz parte de uma trilogia criada por Camus sobre o tema do absurdo, que é quando as relações causais – causa e consequência – não tem sentido ou não existem.

Mesmo sendo indiferente aos absurdos da vida, Meursault não está imune a eles, isso fica evidente em seu julgamento, quando se acha injustiçado por ter sido condenado a pena de morte mais por “não ter chorado no enterro da mãe do que do que por ter matado um homem”. A incoerência do julgamento e o infeliz “acaso” que lhe fez matar o árabe quebram o equilíbrio da vida de Meursault.

Meursault é uma personagem dúbia, ora é possível se identificar com ele, ora sua indiferença parece uma inocente loucura. Ele não admite esperanças de felicidade além do mundo conhecido nem para si ou para outros. “Todos são privilegiados”, ele diz, que é outro jeito de dizer que ninguém o é. A condição humana nivela a todos da mesma condenação: a morte.

Mas também Meursault encontra redenção, de certa forma, na prisão pouco antes de morrer ele tem a real noção do rumo que sua vida irá tomar. Um dos textos lidos no encontro diz que Meursault não joga o jogo da sociedade, por isso ele seria o estrangeiro, alguém semelhante, mas que desobedece ou ignora as regras elementares da sociedade.

Os mais entusiastas com Meursault disseram que ele era lúcido, honesto e honrou as próprias convicções. Já os mais pessimistas viram com ressalvas todas estas atitudes, dizendo que Meursault foi o vilão de si mesmo. Alguém que decide viver a margem dos costumes e hipocrisias da sociedade arcará com as consequências. Meursault no fim é condenado à morte, mas nos últimos instantes desta diz-se preparado para vivê-la novamente.

Mesmo que Meursault não possa ser considerado maldoso, seus atos são no mínimo antipáticos – antipáticos: falta de empatia em Meursault pelas outras pessoas, ele jamais se coloca no lugar dos outros, ele só compreende o que é “natural” do homem. O acaso tão citado como agente dos acontecimentos é algo tão misterioso quando imprevisível.

Há uma passagem no livro em que Meursault admite que suas emoções são atrapalhadas pelas suas necessidades. No enterro de sua mãe ele admite ter vontade de dormir e não perceber direito o que se passava diante de si. Nessa parte crucial da história Meursault é coerente com sua filosofia de vida, ele não sente pena de quem morreu porque não sente pena nem de si mesmo. O processo de luto é, acredito eu, um pouco pela infelicidade do morto, mas também pela nossa própria infelicidade ao morrer.

A história do estrangeiro mostra a irracionalidade da racionalidade, tanto em Meursault cuja toda lucidez não o salva da decapitação e durante o julgamento onde as justificativas para a condenação são incoerentes com o crime.

Pode-se dizer que Meursault não é um personagem “real”, porque ele é um extremo, por um lado ele representa a indiferença que habita dentro de casa um de nós e por outro a desumanização da racionalidade excessiva.

Sinceramente ainda não tenho certeza se entendi o que Camus quis dizer com esta história, mas para mim é que diante dos absurdos da vida, há maneiras absurdas de se comportar (como Meursault), mas que principalmente há absurdos causados por nós mesmos acontecendo e se repetindo em nosso cotidiano.

Questionei-me se Meursault não estaria morto por dentro, pois alguém sem ambições como ele, que se acostuma com todas as situações, alguém que não tem ganas ou fome, alguém pra quem tudo tanto-faz-tanto-fez, é alguém que não usa sua potência transformadora. Meursault é indiferente porque não acha que ele faça diferença na vida dos outros, assim como os outros não fazem diferença na sua.

No mundo “natural” de Meursault não há espaço para nenhum sentimento, só necessidades primárias. Acredito que Meursault viveu sendo apenas meio homem, ele é também o que o homem gostaria de ser idealmente: totalmente racional, excluindo qualquer sentimento. Mas isso não é possível por dois motivos, primeiro por que ser totalmente racional não é ser humano e depois porque o mundo não é totalmente racional, como geralmente se pressupõe, muito pelo contrário há incoerências e absurdos insolucionáveis aos quais a racionalidade não da conta de explicar, do mesmo modo que mais nada resolve O Mistério do Mundo.

Prometeu: conhecer não é salvar-se

Crédito da imagem: http://migre.me/fNq55


Na peça Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, o autor conta a lenda grega do deus Prometeu (aquele que tem o dom da previsão). Na mitologia grega, Prometeu é o criador dos homens e responsável por doar aos mesmos o fogo, este que era uma dádiva exclusivamente divina, mas que se tornou indispensável à empreitada humana. Esta peça faz parte de uma trilogia que conta a história completa do deus que mais se importou com os homens. Na cultura helênica o fogo dado aos homens é mais do que a principal ferramenta humana é também símbolo do conhecimento, da engenhosidade, da esperteza, da sagacidade e da inteligência do homem. Pois, o que Prometeu oferece aos homens é mais que uma ferramenta, o fogo representa uma nova faculdade do homem, a capacidade de transformar as forças da natureza em benefício próprio, algo que até então, era exclusividade dos deuses.

Prometeu paga um preço pela sua audácia, por ter amado mais a sua criatura (homem) do que os seus semelhantes (deuses). Por causa disso ele é submetido a um castigo, de sofrimento repetido: o abutre que surge todos os dias para lhe devorar o fígado. Diante da angústia do castigo, Prometeu arrepende-se e amaldiçoa sua sorte, contudo está convicto de que foi julgado com demasiada severidade por Júpiter.

Lembro-me de termos discutido no último encontro que Prometeu mesmo sabendo o castigo que lhe seria imposto, pois tem o dom da previsão, segue firme em sua decisão de doar o fogo aos homens. Uma vez feita sua atitude é irrevogável e tudo o que ele pode esperar é o fim do castigo ou o perdão de Zeus. Para Prometeu, tamanho é o maravilhamento com sua criação (o homem) que ele não vê alternativa a não ser deixá-la perfeita e para isto busca nos céus divinos o incremento faltante ao homem: o fogo (conhecimento racional).

O principal ponto discutido no encontro foi sobre a real utilidade do conhecimento para a humanidade, pois o conhecer também traz sofrimento e angústia e não apenas livra os homens destas. O despertar da consciência não é livrar-se da condição humana pelo contrário, é ter senso dos próprios limites e grilhões, é um olhar mais atencioso para as próprias amarras. Em certo ponto da discussão foi dito que a sociedade só se sustenta porque há ignorância em seu meio, pois diante do livre arbítrio a racionalidade não oferece motivos suficientemente fortes para a coexistência pacífica entre os homens e neste caso o lado místico-religioso do homem seria o freio para que a humanidade não caísse na selvageria animalesca da barbaridade. Sendo assim a ignorância, e não apenas o conhecimento, sustentaria a sociedade.

Prometeu acorrentado é a imagem da condição humana: consciente de seus grilhões, porém sem poder para livra-se do sofrimento.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre Prometeu: conhecer e sofrer

No Prometeu acorrentado de Ésquilo, o que talvez mais seja enfatizado é a questão da tirania de Zeus e o ato heróico de Prometeu em levar o fogo á humanidade, símbolo da ciência e da civilização. Prefiro enfatizar apenas uma das questões levantadas no último encontro. A relação entre conhecer e sofrer.

Pensar, conhecer, descobrir leva-nos inevitavelmente ao sofrimento?

Nós, efêmeros confrareiros, durante a discussão, ainda que intuitivamente e na base do “achismo”, não fugimos muito da concepção de dois grandes pensadores: Freud e Nietzsche.

Freud, em seu ensaio: A aquisição e o controle do fogo, ressalta que com a conquista da civilização, ou seja, o domínio do fogo, o homem passa a direcionar sua energia límbica (a do prazer) para os afazeres da tecnologia. Instala-se assim, em seu espírito, a melancolia, refreando este prazer.

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche acha inevitável também este sofrimento, seu filósofo grego predileto, Heráclito, o verdadeiro filósofoprometéico, e que foi o primeiro a adotar o fogo como o símbolo do conhecimento e autoconhecimento, é, para ele, o grego mais iluminado e também o mais trágico, por ser o mais sábio.

Nietzsche atribui a si a alcunha de último filósofo dionisíaco, contrapondo o deus Dionísio (conhecimento, verdade) a Apolo (arte, irreal). O sofrimento para o homem é inevitável, a fuga está na arte em Apolo, este representa “os mais puros momentos de repouso do ser”.

Na alegoria da caverna de Platão, o herói, ao sair da caverna e ao descobrir o real, e, ainda que sabendo da animosidade que sofrerá ao retornar à caverna, vai ao encontro de seus pares para passar-lhes a boa nova. Já estamos entrando aqui em uma interpretação cristã?

 A busca do real (da verdade e do conhecimento), estudado na epistemologia e na metafísica, talvez seja o primeiro grande tema da filosofia e que gostaria de continuar nos futuros encontros. Fica aqui a sugestão para uma outra conversa.

Bibliografia
FREUD, S. (1976a). A aquisição e o controle do fogo. In: S.Freud, edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 22, pp. 223-233). Rio de Janeiro: Imago.
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000
GHIRALDELLI Jr., Paulo. Heráclito no Divã. In: Revista Discutindo Filosofia, ano 1, n.3. São Paulo: Escala Educacional.
http://tragica.org/artigos/02/03-clademir.pdf
http://revista.triplov.com/Salao_do_Folhetim/Raissa_Cavalcanti/Prometeu.htm
http://insurgentecoletivo.blogspot.com/2012/02/prometeu-pandora-e-o.htmlO conflito trágico entre arte e verdade no pensamento de