[post bem atrasado, desculpem] O tema do amor em fuga me deixou
inspirada para escrever no blog, depois de um longo tempo sem pegar
no teclado. Esse ainda não é o texto de comentário dos filmes,
que ainda estou terminando, mas gostaria de compartilhar o poema que mais
gosto sobre o amor.
O
Amor Bate na Aorta (Carlos Drummond de Andrade)
Cantiga
de amor sem eira
nem
beira,
vira
o mundo de cabeça
para
baixo,
suspende
a saia das mulheres,
tira
os óculos dos homens,
o
amor, seja como for,
é
o amor.
Meu
bem, não chores,
hoje
tem filme de Carlito.
O
amor bate na porta
o
amor bate na aorta,
fui
abrir e me constipei.
Cardíaco
e melancólico,
o
amor ronca na horta
entre
pés de laranjeira
entre
uvas meio verdes
e
desejos já maduros.
Entre
uvas meio verdes,
meu
amor, não te atormentes.
Certos
ácidos adoçam
a
boca murcha dos velhos
e
quando os dentes não mordem
e
quando os braços não prendem
o
amor faz uma cócega
o
amor desenha uma curva
propõe
uma geometria.
Amor
é bicho instruído.
Olha:
o amor pulou o muro
o
amor subiu na árvore
em
tempo de se estrepar.
Pronto,
o amor se estrepou.
Daqui
estou vendo o sangue
que
corre do corpo andrógino.
Essa
ferida, meu bem,
às
vezes não sara nunca
às
vezes sara amanhã.
Daqui
estou vendo o amor
irritado,
desapontado,
mas
também vejo outras coisas:
vejo
beijos que se beijam
ouço
mãos que se conversam
e
que viajam sem mapa.
Vejo
muitas outras coisas
que
não ouso compreender...
Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond de. Brejo das almas. Rio de Janeiro: Record, 2001.
¹ Fonte da imagem: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-20490/fotos/detalhe/?cmediafile=19902134
