Hoje sabemos que o centro do universo não é a terra, o que é gravidade, o que são micróbios, o homem já foi a lua, temos bebês de proveta fabricados em escala industrial, discute-se a possibilidade em criar seres humanos com a manipulação genética, produzimos alimentos em abundância, apesar da fome ainda reinar; dominamos o átomo. Na virada do século 18 para o 19 acreditava-se que o homem abandonaria a religião, tamanha era a crença na ciência.
2500 anos depois do nascimento da filosofia ocidental o homem ainda vive atrelado ao pensamento mítico, o criacionismo explica para muitos o surgimento do universo e da vida e não o big bang e o evolucionismo. Se você acredita em cartas de tarot e horóscopo, não passa debaixo de escada, tem mendo de gato preto, faz sinal da cruz em frente da igreja, desvira o chinelo para salvar sua mãe, você não está distante deste novo/velho universo mítico. O ser humano é a contradição em estado bruto e a levou para a filosofia, sua cria dita racional. Suas crenças são excludentes umas com as outras e sua filosofia ou filosofias também.
A filosofia é vista por muitos como mera masturbação intelectual, movimentos teocráticos existem no mundo oriental e ocidental, a busca de respostas para o sentido da vida não é hegemonia das academias e mesmo os acadêmicos de várias linhas de pensamento tentam juntar misticismo e racionalismo. O homem ocidental talvez tenha se distanciado da crença simples e pura no misticismo, mas com a ciência e a filosofia criou uma nova corrente mais complexa de confusão mental,
algo como aquele poema "Ismália" de Alphonsus de Guimaraens:
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

É necessário termos uma visão histórica das diversas explicações encontradas pelos seres humanos, considerando as diferentes culturas e momentos em que experimentaram as inquietações que marcaram as primeiras manifestações do pensamento de que temos notícia, seja para responder às necessidades imediatas da vida ou explicar sua própria origem mediante ricas construções teológicas, essas últimas, notáveis exemplos da singularidade humana em sua capacidade de permanente perplexidade ante tudo que se lhes apresenta como um mistério, a epopeia do saber não se deteve. Constitui equívoco grosseiro realizar juízos extemporâneos sobre os primeiros esforços de compreensão do mundo em que viveram os diferentes grupamentos humanos, na medida em que o devir da consciência de si e do mundo que nos rodeia consiste em um contínuo processo de transformação dialética, no interior do qual, contradições são superadas para dar lugar a outras qualitativamente superiores. Nesse sentido, o racionalismo moderno inaugura uma inclinação radical de ajustamento do saber de si e sobre o mundo, em oposição suprassumida (supera e mantêm) aos períodos históricos anteriores, ainda que marcados pela presença de fabulações pré-filosóficas, estabelecendo, desse modo, um novo modelo analítico, melhor adaptado ao crescente desenvolvimento das sociedades humanas e aos consequentes desafios que se impuseram, de maneira inarredável, pela marcha histórica da transformação da natureza e de nós mesmos. Assim, não há que se falar sobre o caráter excludente das religiões, como se tamanha diversidade criativa fosse um verdadeiro sinônimo de uma estupidez congênita. A secularização das sociedades já ocorre aceleradamente. Nos países nórdicos, por exemplo, muitas igrejas estão sendo alugadas e transformadas em livrarias. Quanto à suposta confusão mental produzida pela ciência e pela filosofia, acontece justamente o oposto, tais ciências nos abriram possibilidades do exercício cada vez mais expandido de nossas capacidades cognitivas. O que nos carreta tal confusão é a profissão de fé dos filósofos da pós-modernidade em atacar toda e qualquer visão totalizadora do real (real porque síntese de múltiplas determinações), em nome de uma unilateral supervalorização do singular, do específico, postura que atende bem à vontade dos apóstolos do individualismo da sociedade produtora de mercadorias em que vivemos. Tal recorte epistemológico acaba por fazer do mundo um mosaico irracional, onde inexistem traços gnosiológicos comuns e generalizáveis, o que precipita a todos em um niilismo sem fim, como convém a um mundo de indivíduos atomizados e em progressiva e autodestrutiva negação de seu gregarismo imanente.
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