sábado, 26 de abril de 2014

Medéia e Jasão: a esquizofrenia do logos

Fugindo da tese mais comum da vingança passional da Medéia de Eurípedes,  em "Medéa" de Pasolini temos dois mundos antagônicos representados. Primeiro Medéia a feiticeira desenraizada de sua terra e profundamente vinculada a um mundo que cultiva o misticismo, o divino, o mágico, em seguida Jasão,  o homem que aos poucos se distancia do mítico, se torna urbano, prático, cético, que não dialoga mais com o aquele mundo que estaria morrendo com o surgimento da filosofia,  representando o racionalismo, o logos em ascensão na Grécia antiga.

Hoje sabemos que o centro do universo não é a terra, o que é gravidade, o que são micróbios, o homem já foi a lua, temos bebês de proveta fabricados em escala industrial, discute-se a possibilidade em criar seres humanos com a manipulação genética, produzimos alimentos em abundância, apesar da fome ainda reinar; dominamos o átomo. Na virada do século 18 para o 19 acreditava-se que o homem abandonaria a religião, tamanha era a crença na ciência.

2500 anos depois do nascimento da filosofia ocidental o homem ainda vive atrelado ao pensamento mítico, o criacionismo explica para muitos o surgimento do universo e da vida e não o big bang e o evolucionismo. Se você acredita em cartas de tarot e horóscopo, não passa debaixo de escada, tem mendo de gato preto, faz sinal da cruz em frente da igreja,  desvira o chinelo para salvar sua mãe, você não está distante deste novo/velho  universo mítico.

O ser humano é a contradição em estado bruto e a levou para a filosofia, sua cria dita racional. Suas crenças são excludentes umas com as outras e sua filosofia ou  filosofias também.

A filosofia é vista por muitos como mera masturbação intelectual, movimentos teocráticos existem no mundo oriental e ocidental, a busca de respostas para o sentido da vida não é hegemonia das academias e mesmo os acadêmicos de várias linhas de pensamento tentam juntar misticismo e racionalismo. O homem ocidental talvez tenha se distanciado da crença simples e pura no misticismo, mas com a ciência e a filosofia criou uma nova corrente mais complexa de confusão mental,
algo como aquele poema "Ismália" de Alphonsus de Guimaraens:

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...