domingo, 17 de agosto de 2014

Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará?









Queremos realmente conhecer a verdade ou buscamos somente uma verdade que nos seja suficiente, que nos alivie, nos console?

Há pessoas que preferem permanecer com suas certezas sem qualquer motivação para questioná-las?

É cômodo não saber, não ter que pensar, não problematizar?

Há uma relação entre verdade, felicidade e angústia?
Conhecer, buscar o esclarecimento, sair dos dogmas é direito de todos?
É factível a todos conhecer a verdade?
A verdade é perturbadora?
A filosofia é para todos os espíritos?
A verdade liberta?

Há uma máxima popular que diz que ninguém é dono da verdade, ou ainda, que tudo é relativo, que a verdade é relativa. Ela se adequaria a situações e ao gosto de cada um; percebe-se essa relatividade nas religiões, por exemplo, onde cada uma tem a sua verdade, renegando-se umas às outras, pondo-se como absolutas, apesar de o homem sonhar que ao menos uma delas, quando não várias, tenha as respostas para os absurdos e dúvidas da vida, mas a conotação de "mistérios" encontrada nas religiões demonstra, a quem se aventurar por uma delas, que terá de percorrer um longo e árduo caminho de busca para a verdade prometida.



As ciências assumem que muitas verdades são contextuais, conjeturais e passageiras até que se proponha e se imponha uma verdade nova que suplante a anterior e para isso teria que obedecer o método científico, "dogma" da ciência, a qual também é passível de renovação, no que se refere ao cotidiano e ao senso comum, a verdade chega a um nível de particularidade comunitárias, tribais, familiar e pessoal, que passa a ser um queijo suíço. 

Quatro tragédias sobre a verdade

A verdade liberta?

É uma questão que perpassa por esses filmes em cada protagonista. Sócrates apregoava que uma "vida não examinada não vale a pena ser vivida" (2), admitamos que haveria condições para estabelecermos uma vida refletida, a filosofia é uma bom caminho para isso, mas essas condições não são do conhecimento da grande maioria que passa pela vida à margem da reflexão, muitos por escolha preferem passar ao largo desse verdadeiro combate, pois essa conduta exige do homem uma atitude de discussão e embate constante com os padrões de vida postos socialmente, é um combate duro e sofrido, o não combate é mais cômodo, menos extenuante para muitos. A recusa a esse combate é ilustrada em Crimes e pecados, quando uma cética existencialista, numa discussão familiar sobre religião, arranca do tio religioso a informação que a verdade não importa para ele, o que está na bíblia é o que importa.

Livres?

Vivemos em um estado de penumbra, em uma caverna sem a identificá-la. A remota possibilidade de descobrir ainda poderá gerar uma reação negativa a esta descoberta como ocorre no Mito da Caverna de Platão, metáfora da condição do ser envolvido na ignorância do mundo à sua volta, da realidade verdadeira. Demonstra o quanto o caminho seria penoso a quem se propõe buscar a verdade. O herói quando retorna à caverna para comunicar aos outros prisioneiros a verdade ele é espancado e morto.

O conhecimento, a verdade e sua obtenção nortearam os quatro filmes do módulo Mito e Tragédia do livro História da Filosofia em 40 filmes(1) em nossas sessões caseiras. Medéia, OldBoy, Ladrões de bicicleta e Crimes e pecados apresentam o herói hora em fuga, hora em busca de algo que o mesmo às vezes não sabe exatamente o que é (Medéia, Old Boy), ou busca algo pensando ser sua salvação (Medéia e Ladrões de bicicleta) e por último um herói deslocado procurando entender o que é a felicidade com seu guru filósofo em paralelo a um assassino atormentado pelas consequências de seu ato (Crimes e Pecados).

A Medéia, de Passolini, tangencia por dois mundos do conhecimento: o mítico, na figura de Medéia e o racional na figura de Jasão que se confrontam, nunca dialogam, sendo que o mundo da lógica e da razão estaria se impondo ao velho mundo mítico. Depois entramos na tragédia moderna Oldboy, vimos a trajetória sangrenta e vingativa do personagem principal para descobrir por que passou 15 anos preso num quarto de hotel, quando o descobre percebe que preferia não saber.

Em Ladrões de bicicleta, filme de leitura marxista da realidade, vimos o herói na busca por uma bicicleta que lhe garantisse o emprego, um herói sem a mínima noção do absurdo da sua situação como peça de uma engrenagem de moer gente. Dentro do sistema de exploração da sua força de trabalho ele só cumpria seu papel tentando sobreviver, mas a integração no sistema não envolve necessariamente estar empregado, o desemprego é parte do processo de exploração do sistema capitalista.

Encerramos com Crimes e pecados. Aqui temos um herói que não se enquadra no padrão do homem ideal e em crise no casamento dirigindo um documentário sobre a felicidade com um filósofo, seu guru, sobrevivente de um campo de concentração, este teria respostas para sua angústias e buscas, mas ao final estas respostas se revelam inconclusivas

Na história paralela do longa temos um assassino não descoberto pela polícia se deparando com a questão do que seja realmente um criminoso, a sua culpa estaria vinculada com a certeza da punição social e mesmo religiosa, não havendo ele deixa de ser um criminoso, ao menos para ele mesmo. A felicidade é relativa à consciência de valores que carregamos ou com o que nos importamos para estar no mundo e ser aceito por ele, ainda que venhamos a mentir para ele e para nós mesmo. Ao herói frustado por não se enquadrar aos padrões sociais só lhe resta a angústia dos seus questionamentos. 


O filme Oldboy tem fortes traços do mito de Édipo, herói grego desgraçado pela verdade quando descobre ter matado o pai e esposado a mãe. O herói coreano tem uma segunda chance para ser feliz se escolher permanecer na ignorância e assim escolhe não saber. Em Ladrões de bicicleta o herói permanece o tempo todo vítima do sistema e o reproduz em micro escala ao procurar sua sobrevivência. Não percebe que a união com seus pares talvez lhe oferecesse a oportunidade de tentar mudar a sua exploração, não se sente explorado e interage com o seu mundo injusto, achando natural a sua condição, mesmo com a ajuda mística buscada por sua esposa obtém apenas uma resposta consolativa para continuar integrado na exploração de sua força de trabalho. 


No existencialismo a tão decantada liberdade se torna um fastio: "o homem está condenado a liberdade", afirma Sartre, apunhalando a visão que se tem em geral da liberdade como uma dádiva, que por sinal é a mesma sobre a busca do conhecimento e da sabedoria. 

Se analisarmos a figura estereotípica do filósofo angustiado chegaremos à conclusão de que ela não foge muito da realidade e mesmo aqueles que escolhem o contentamento do não questionamento das condições da sua caverna, não buscando a possível existência de outras possibilidades de estar no mundo, acaba ainda assim por usufruir da sua liberdade ao fazer a escolha por ignorar.
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1) COSTA, Alexandre; PESSOA, Patrick. História da filosofia em 40 filmes. Rio de Janeiro: Nau, 2013. Mais detalhes aqui e aqui.

2) GRAYLING, A.C.. O significado das coisas: aplicação da filosofia à vida. Lisboa: Gradiva, 2002. p. 11-12. Mais aqui.

3) Mito da CavernaAqui uma análise.

sábado, 26 de abril de 2014

Medéia e Jasão: a esquizofrenia do logos

Fugindo da tese mais comum da vingança passional da Medéia de Eurípedes,  em "Medéa" de Pasolini temos dois mundos antagônicos representados. Primeiro Medéia a feiticeira desenraizada de sua terra e profundamente vinculada a um mundo que cultiva o misticismo, o divino, o mágico, em seguida Jasão,  o homem que aos poucos se distancia do mítico, se torna urbano, prático, cético, que não dialoga mais com o aquele mundo que estaria morrendo com o surgimento da filosofia,  representando o racionalismo, o logos em ascensão na Grécia antiga.

Hoje sabemos que o centro do universo não é a terra, o que é gravidade, o que são micróbios, o homem já foi a lua, temos bebês de proveta fabricados em escala industrial, discute-se a possibilidade em criar seres humanos com a manipulação genética, produzimos alimentos em abundância, apesar da fome ainda reinar; dominamos o átomo. Na virada do século 18 para o 19 acreditava-se que o homem abandonaria a religião, tamanha era a crença na ciência.

2500 anos depois do nascimento da filosofia ocidental o homem ainda vive atrelado ao pensamento mítico, o criacionismo explica para muitos o surgimento do universo e da vida e não o big bang e o evolucionismo. Se você acredita em cartas de tarot e horóscopo, não passa debaixo de escada, tem mendo de gato preto, faz sinal da cruz em frente da igreja,  desvira o chinelo para salvar sua mãe, você não está distante deste novo/velho  universo mítico.

O ser humano é a contradição em estado bruto e a levou para a filosofia, sua cria dita racional. Suas crenças são excludentes umas com as outras e sua filosofia ou  filosofias também.

A filosofia é vista por muitos como mera masturbação intelectual, movimentos teocráticos existem no mundo oriental e ocidental, a busca de respostas para o sentido da vida não é hegemonia das academias e mesmo os acadêmicos de várias linhas de pensamento tentam juntar misticismo e racionalismo. O homem ocidental talvez tenha se distanciado da crença simples e pura no misticismo, mas com a ciência e a filosofia criou uma nova corrente mais complexa de confusão mental,
algo como aquele poema "Ismália" de Alphonsus de Guimaraens:

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...