sábado, 27 de julho de 2013

O escravo, o pobre, o feio e a tal felicidade



O escravo, o pobre, o feio e a tal felicidade


O romântico: "Dinheiro não traz felicidade".
O cínico: "Mas manda buscar!"

A relação do dinheiro com a felicidade não é uma questão nova, 350 anos a.C., em Ética a Nicômaco, Aristóteles indicava o consenso no qual os desafortunados e os feios dificilmente seriam felizes. Quanto aos escravos, a possibilidade seria nula. Vou me ater somente aos desafortunados e aos escravos, a questão "os feios e a felicidade" deixo como sugestão aos interessados.


Autonomia - chave para a felicidade

Se em Aristóteles a felicidade é o maior bem, posto que ela é o único bem com um fim em si mesmo, vejo então o dinheiro como o símbolo de todos os prazeres, o suprassumo da representação destes por poder comprar a todos praticamente. Pelo fascínio e domínio que exerce, é para muitos a própria felicidade.

Aristóteles se aproxima mais de Epicuro (341-269 a.C.) do que ao cínico, este também reconhecia a necessidade da autossuficiência, mas em um nível menos exigente de consumo. Epicuro advogava que pão e água é uma excelente refeição, buscava a autossuficiência numa espécie de comunidade alternativa (Jardim), onde procurava prover de tudo o que fosse minimamente necessário. Para Epicuro "o melhor da autossuficiência é a liberdade".

Nesse contexto, o cínico encontra apoio em Aristóteles em parte:

"as pessoas não precisam de muitas e grandes coisas para ser felizes, simplesmente por que não podem ser felizes sem bens exteriores: com efeito, a autossuficiência e a ação não pressupõe  excesso". Ética a Nicômaco, Livro 10.


Para a autossuficiência e a autonomia é só para isto que serve o dinheiro, condições que não são possíveis ao escravo. O dinheiro nos dá autossuficiência para não nos preocuparmos com coisas básicas, como alimentação, mas ser afortunado e, portanto, autônomo financeiramente, não é sair por aí comprando coisas. Nos é caro dizer ao dinheiro - e a todos os prazeres que ele compra - que somos seu dono ou ainda algo do tipo: "Não dependo somente de ti para ser feliz!". Aos duros e desafortunados vai parecer piada por o dinheiro não lhe ser muito familiar. A questão da autonomia vai além do dinheiro em si. 



Ter dinheiro e todos os prazeres que este pode proporcionar não é ruim, o ruim é ser dependente e escravo deste e de qualquer prazer. A autonomia apontada por Aristóteles se relaciona à dependência dos prazeres, do apego aos "belos corpos gregos", ao irresistível sorvete de chocolate supreme suíço. Do sexo à gula e a outros prazeres. Seguir o caminho a que nos propusemos e não nos desviarmos dele, recusando os prazeres mais imediatos, exige uma autonomia de espírito, de caráter e de conduta, que não se conquista de imediato. O mal não está em ter desejo, mas em deixar-se ser engolido por ele.

"A vida é feita de escolhas", é o ditado popular. Em Aristóteles a conduta autônoma é possível de ser conseguida com a prática e a análise constante da melhor escolha em todas as situações em que nos envolvemos diariamente, que é o caminho da moderação. Estas escolhas são resultado de uma vida de constante análise de nossos hábitos. A partir do momento em que exigimos e deixamos a razão dominar as nossas escolhas em busca da melhor resposta para cada situação, estas passam a ser quase que automáticas, pois são resultado de uma razão que poucos são capazes de exercer senão o  verdadeiro sábio. 

Em seu manual de ética, Aristóteles reconhece essa dificuldade: 

"se palavras bastassem para que nos tornássemos bons, elas teriam com justiça obtido grandes recompensas (...) e deveríamos ter as palavras sempre à disposição". 

A virtude do uso dessa razão é o que aproxima o sábio dos deuses.

"As pessoas que usam sua própria razão e a cultivam parecem ter o espírito nas melhores condições e ser mais queridas pelos deuses. De fato, se os deuses se interessam de algum modo pelos assuntos humanos, como geralmente se crê, é razoável imaginar que aquilo que é melhor e tem mais afinidades com eles (isto é, a razão) lhes dê prazer..., e quem estiver nestas condições será provavelmente mais feliz." Sendo assim, o sábio é o homem mais feliz.

Num possível diálogo entre o sábio aristotélico, o romântico e o cínico, ele não concordaria com nenhum dos dois e apontaria o caminho da moderação.


O romântico: Dinheiro não traz felicidade. 
O cínico: Mas manda buscar!
O sábio aristotélico: Não manda buscar, a ele não devemos nos escravizar, assim como a todos os prazeres. É um caminho para a autonomia e desta para a felicidade.