Em nosso primeiro encontro do CineFilô assistimos ao filme Rashomon de Akira Kurosawa, baseado nos contos "Dentro do
bosque" e "Rashomon" de R. Akutagawa.
A base do filme são as várias versões dos personagens sobre
um mesmo acontecimento, o estupro de uma mulher
e conseqüente morte do seu marido durante uma
viagem.
Percebemos que os
personagens se movem pelos seus interesses no relato dos acontecimentos, cada um conta sua versão de
maneira que, apesar de estar em uma situação indigna, sua ação diante dela
acaba tendo um mínimo de atitude digna. A viúva tenta manter sua dignidade de esposa desonrada
relatando que tentou o suicídio após o ato consumado; o marido morto, intercedido
por um médium, afirma que cometeu suicídio, pois este era o único caminho para
sua dor e até
mesmo o estuprador e assassino assume uma postura minimamente digna nos seus
atos, justificando que foi por amor e mesmo não tendo a intenção de matar seu
oponente, este morreu num duelo limpo.
Entre as várias
discussões ocorridas no encontro, a mais acalorada foi uma comparação do filme
com as notícias da imprensa sobre os black blocs e as passeatas. Moisés apontou pertinentemente que existem versões para
tudo e perguntou sobre as razões da grande
imprensa para as suas versões. Lembramos do episódio filmado de um policial que apanhou de
uma série de manifestantes ou vândalos, como afirmam os jornalistas, durante a
passeata do dia 25 de outubro no Parque D. Pedro. O mesmo incidente gerou
comentários e versões nas redes sociais inversamente contrários um do outro. O vídeo na Mídia Ninja junto com a legenda parecia um ato de resistência, e o mesmo na G1, daria para se apiedar do policial. Diante dos mesmos episódios, assim
como os personagens do filme, cada um verá e relatará os eventos imerso de
interesse próprio, aspirações, espírito de corpo e, completo aqui, de espírito de porco (por que não?) se assim for conveniente. Quais então seriam os interesses da grande imprensa? A quem ela representa? O que importa de fato aos donos dos grandes veículos de comunicação? As perguntas soam até pueril e a resposta óbvia.

Existe uma verdade diante
da quebradeira dos caixas eletrônicos dos bancos? há justificativas plausíveis para
atual situação das manifestações? Há um inconformismo contra o que? A quem
interessa e a quem não interessa esta reação, violenta ou não, ainda que pacífica?
Foi lembrando, que muitos atos de violência também foi cometido pela polícia.
No final do filme Rashomon
é aberto à possibilidade de haver uma verdade neutra, um lenhador arrependido
de seus atos decide contar os fatos como possivelmente ocorreram. Será que na vida
real é possível haver diante de várias versões, alguém ou uma forma de contar
um fato sem interesses pessoais, de classe ou de outra ordem?
Nas reuniões da Confraria
Filosófica ao fazermos observações e comentários, tentamos buscar uma coerência
e imparcialidade em nossas análises? Um meio termo talvez ou nossa ótica é
sempre a partir do nosso interesse na questão? É consciente ou inconsciente esse
processo?
Partindo do pressuposto
que é impossível uma neutralidade, é possível nos aliarmos ao lado certo ou ao
bom caminho? Existe o lado certo?

Sem querer ser relativista, mas já sendo, acho que basicamente para todos os conflitos que ocorrem na vida, existem várias versões. Uma simples discussão no trabalho, já geram várias versões do mesmo fato. Cada qual, sempre irá "puxar a sardinha" pro seu lado, afirmando que o seu ponto de vista é o correto, e o outro é quem está equivocado.
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