quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Rashomon nosso de cada dia






Em nosso primeiro encontro do CineFilô assistimos ao filme Rashomon de Akira Kurosawa, baseado nos contos "Dentro do bosque" e "Rashomon" de  R. Akutagawa.

A base do filme são as várias versões dos personagens sobre um mesmo acontecimento, o estupro de uma mulher e conseqüente morte do seu marido durante uma viagem.

Percebemos que os personagens se movem pelos seus interesses no relato dos acontecimentos, cada um conta sua versão de maneira que, apesar de estar em uma situação indigna, sua ação diante dela acaba tendo um mínimo de atitude digna. A viúva tenta manter sua dignidade de esposa desonrada relatando que tentou o suicídio após o ato consumado; o marido morto, intercedido por um médium, afirma que cometeu suicídio, pois este era o único caminho para sua dor e até mesmo o estuprador e assassino assume uma postura minimamente digna nos seus atos, justificando que foi por amor e mesmo não tendo a intenção de matar seu oponente, este morreu num duelo limpo.

Entre as várias discussões ocorridas no encontro, a mais acalorada foi uma comparação do filme com as notícias da imprensa sobre os black blocs e as passeatas. Moisés apontou pertinentemente que existem versões para tudo e perguntou sobre as razões da grande imprensa para as suas versões. Lembramos do episódio filmado de um policial que apanhou de uma série de manifestantes ou vândalos, como afirmam os jornalistas, durante a passeata do dia 25 de outubro no Parque D. Pedro. O mesmo incidente gerou comentários e versões nas redes sociais inversamente contrários um do outro. O vídeo na Mídia Ninja junto com a legenda parecia um ato de resistência, e o mesmo na G1, daria para se apiedar do policial. Diante dos mesmos episódios, assim como os personagens do filme, cada um verá e relatará os eventos imerso de interesse próprio, aspirações, espírito de corpo e, completo aqui, de espírito de porco (por que não?) se assim for conveniente. Quais então seriam os interesses da grande imprensa? A quem ela representa? O que importa de fato aos donos dos grandes veículos de comunicação? As perguntas soam até pueril e a resposta óbvia. 

Existe uma verdade diante da quebradeira dos caixas eletrônicos dos bancos? há justificativas plausíveis para atual situação das manifestações? Há um inconformismo contra o que? A quem interessa e a quem não interessa esta reação, violenta ou não, ainda que pacífica? Foi lembrando, que muitos atos de violência também foi cometido pela polícia.

No final do filme Rashomon é aberto à possibilidade de haver uma verdade neutra, um lenhador arrependido de seus atos decide contar os fatos como possivelmente ocorreram. Será que na vida real é possível haver diante de várias versões, alguém ou uma forma de contar um fato sem interesses pessoais, de classe ou de outra ordem?

Nas reuniões da Confraria Filosófica ao fazermos observações e comentários, tentamos buscar uma coerência e imparcialidade em nossas análises? Um meio termo talvez ou nossa ótica é sempre a partir do nosso interesse na questão? É consciente ou inconsciente esse processo?

Partindo do pressuposto que é impossível uma neutralidade, é possível nos aliarmos ao lado certo ou ao bom caminho? Existe o lado certo?