sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caminhos inglórios

No último encontro da Confraria Filosófica, em que lemos O Rei Lear, a Jess e eu cogitávamos sobre uma frase de Edmundo que chamou muito a nossa atenção:

Edmundo: Eis a sublime estupidez do mundo; quando nossa fortuna está acabada – muitas vezes pelos excessos de nossos próprios esforços de nossos próprios atos – culpamos o sol, a lua e as estrelas pelos nossos desastres; como se fôssemos canalhas por necessidade, idiotas por influência celeste; escroques, ladrões e traidores por comando do zodíaco; bêbados, mentirosos e adúlteros por força da obediência a determinações dos planetas; como se toda perversidade que há em nós fosse pura instigação divina. É admirável a desculpa do homem devasso – responsabiliza uma estrela por sua devassidão. Meu pai se entendeu com minha mãe sob a Ursa Maior; porquanto devo ser lascivo e perverso. Bah! Eu seria o que sou, mesmo que a estrela mais virginal do firmamento tivesse iluminado a minha bastardia. (ATO I, CENA III, p.22)

Depois achei esta frase de Kent que defende uma ideia completamente contrária à de Edmundo.

Kent: São as estrelas, as estrelas que acima de nós governam nossos temperamentos. Senão um mesmo casal não poderia gerar filhos tão diferentes. (ATO IV, CENA III, p.103)

A princípio parece meio incipiente a discussão, se os astros influenciam ou não a nossa personalidade. Mas a real pergunta de Kent e de Edmundo é de onde vem a maldade no ser humano. É inerente, como diz Edmundo, ou tem fatores externos, como diz Kent?

A revista Época da semana passada (6 agosto de 2013) traz essa mesma indagação, com o vilão Félix (Mateus Solano), da novela Amor à Vida na capa.


Edmundo na pós-modernidade?
A reportagem da revista Época aborda basicamente a relação entre a biologia humana e os crimes, apresentando vários casos em que os criminosos tinham alguma disfunção hereditária no cérebro. Será que somos biologicamente programados para fazer o mal? Até que ponto pode a genética influenciar? Na reportagem apesar de constatarem a influência de problemas neurológicos em vários criminosos, os cientistas também admitem que o cérebro é capaz de mudar de acordo com as atitudes do sujeito. Isto é, mesmo um cérebro com disfunção para sentir emoção e empatia, como é o caso de psicopatas, este seria moldável por fatores externos (não biológicos). Além disso, o texto afirma que a maioria dos criminosos na sociedade não tem disfunção cerebral alguma e que muitos indivíduos com disfunção cerebral para emoções e empatia nunca se torna um criminoso.

Segundo a teoria behaviorista de Skinner nossa personalidade ou comportamento é determinado pelo tripé: organismo (predisposição biológica), ambiente (cultura) e história de vida do indivíduo. Astros e estrelas celestes ficam de fora. 

O que está em evidência o tempo todo na peça de Shakespeare é o individuo e seus atos de nobreza ou vilania, de honra ou desonestidade, bem ou mal. O que faz com que filhas de mesmo pai e mesma mãe, sejam tão diferentes? – é a real pergunta de Kent. 

Certa vez conversando com meu avô, eu dizia que meus irmãos iriam, sim, por um bom caminho na vida, fariam faculdade também, pois a criação era a mesma e tal. E aí meu avô me perguntou: 

- Beatriz, os dedos das mãos são todos iguais?
- Não
- E todos dedos vêm da mesma mão e do mesmo braço, não é?
- É.
- Então por que você e seus irmãos seriam iguais só por que vem dos mesmos pais?
- !?!? (Um a zero pro meu vô...)

Gattaca
O filme Gattaca – Experiência genética (spoilers) trata de mais um fator comportamental que é desconsiderado na teoria de Skinner – a escolha. Pois bem, a personagem principal do filme, Vincent, é um homem imperfeito biologicamente, pois foi gerado de maneira natural, sem manipulação genética para ter olhos de determinada cor, aptidão para música, outros talentos etc. Teoricamente, além de Vincent ser o mais feio e "burro" em comparação com os demais, ele também deveria ser violento, imprevisível e o suspeito principal de um assassinato. Mas e a escolha individual de Vincent? Suas ambições? Suas aspirações? Quem ele deseja ser na vida? Como ele quer viver sua vida? Isso é sempre determinado pelos genes? Esse é o questionamento do filme.

Já na peça de Shakespeare, Edmundo, filho bastardo do duque de Gloucester, exime as estrelas de culpa por sua maldade e assume que é do jeito que é porque quer.

 
                                                 Memepedia YouPIX


Me pergunto qual seria a solução para a maldade. Será que a disciplina da Ética ensinada por Aristóteles seria realmente capaz de eliminar a maldade? Ou será que Sócrates conseguiria convencer aos maus pela lógica que os caminhos inglórios não valem a pena. Ou será ainda, como sugeriu Félix na cena acima, que a psicoterapia seria capaz de tornar honesto um sujeito torto? 


Laranja mecânica, 1971
Outros filmes e livros também abordam a questão da possível recuperação da delinquência. Um dos mais famosos é o Laranja Mecânica.

No fim da história de Shakespeare, Edmundo tenta se redimir fazendo seu único ato bom na história:

Edmundo: Anseio pela vida; quero fazer algo de bom a despeito de minha natureza... Depressa mandem alguém ao castelo...Não percam tempo...eu dei ordem...escrevi...condenado à morte Cordélia e o Rei. Corram enquanto é tempo. (ATO V, CENA III, p.136)

Fernando Savater, em seu livro A importância da escolha, tem uma frase interessante sobre a liberdade de escolher entre fazer o bem ou o mal, ou por a culpa nas circunstâncias ou no genoma: 

“O curioso dessas próteses que aliviam a responsabilidade é que funcionam só para a culpa, jamais para o mérito. Nenhum ganhador do Prêmio Nobel ou alpinista que chega ao cume do Everest dilui o fulgor de sua façanha atribuindo-a as suas condições sociais ou à sua feliz dotação genética: foram eles mesmos, contra ventos e marés adversos, quem estudaram, quem esforçaram, derrotaram a incompreensão e as dificuldades, etc. Somo excelentes graças a nós mesmos, mas somos maus e deficientes apesar de nós mesmos.” (p. 70)

Edmundo e Félix possuem vários pontos em comum: filhos relegados pelos pais, inveja dos irmãos, a ambição de conseguir seus objetivos por meios ilegais e sem escrúpulos, noção reduzida do perigo, pois armam seus golpes e mentiras, com a certeza de não serem punidos, e o desejo de poder que os guia a querer cada vez mais. Esses dois personagens que nasceram "desprivilegiados", teriam tudo para se tornarem vítimas, mas resolveram tornarem-se algozes. 

E por último, a reportagem da revista Época nos lembra de que biologia não é destino, pois ainda nenhum cientista ou filósofo conseguiu desvendar totalmente o que se passa nos territórios mais escuros da alma humana.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Retrato de Dorian Gray - Prefácio

Crédito da imagem:
diariodeumadiretora.blogspot.com.br
"O artista é o criador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte. O crítico é aquele que sabe traduzir de outra maneira ou com material diferente a sua impressão das coisas belas. A mais alta, assim como a mais baixa, forma de crítica é uma autobiografia. Aqueles que encontram feias significações nas coisas belas são corruptos sem serem encantadores. É um defeito. Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança. São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza. Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais. A antipatia do século XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho. A antipatia do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho. A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar o que quer que seja. Até as coisas verdadeiras se podem provar. Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo. O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo. O pensamento e a linguagem são para o artista instrumento de arte. O vício e a virtude são para o artista materiais de arte. Sob o ponto de vista da forma, o tipo de todas as artes é a arte do músico. Sob o ponto de vista do sentimento, o tipo é a profissão do actor. Toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Aqueles que descem além da superfície fazem-no com risco seu. O mesmo sucede àqueles que lêem o símbolo. É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte. A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital. Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo."


Oscar Wilde – Prefácio de "O retrato de Dorian Gray". O retrato de Dorian Gray. Tradução de Lígia Junqueira. 2. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012. p.5

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Rei Lear – William Shakespeare

Confraria filosófica – 04/08/2013

Alguns pontos discutidos no encontro:

1- Edmundo zomba que quem acredita que os astros influenciam na personalidade do homem, ele acredita que seria tão maldoso quanto é mesmo que tivesse nascido na lua mais cândida.

2 – Edmundo diz que a natureza é sua deusa, isto é, a natureza do mais forte, do mais esperto, daquele que pode mais sobre os demais.

3 – A burrice da velhice de Lear, o orgulho e a arrogância de sua personalidade, pois não aceita ser aconselhado por Kent. A credulidade de Gloucester em seu filho bastardo. A falta de desconfiança desses dois pais, que acreditaram serem enganados por seus filhos favoritos (Cordélia e Edgar).

4 – A maldade de Edmundo que se assemelha a outras peças de Shakespeare, como Ricardo III.

5 – A valorização da hipocrisia na corte de Lear, e a ambição sem limites de suas filhas desnaturadas.
 Imagem retirada daqui: http://goo.gl/XQmrHG
6 – Cordélia ao não se pronunciar devidamente como o pai esperava foi teimosa e infantil ou sofreu apenas por sua falta de jeito, inteligência e maturidade para se expressar como convinha? Cordélia não era casada como suas irmãs, era a mais nova e inexperiente, contava apenas com o auxílio de sua ama.

7 – Política, poder e bajulação andam sempre juntos.

8 – Drama pessoal de sucessão hierárquica que todo homem rico e poderoso passa, não apenas o rei Lear, mas também Gloucester.

9 – Presença forte de mulheres gananciosas, inescrupulosas e políticas, as irmãs Goneril e Regana se assemelham a Lady Macbeth. Desejo pelo poder e maldade independem de gênero.

Raul Cortez - Rei Lear (2000)
Imagem retirada daqui: http://goo.gl/9D6O5t
10 – Kent é o herói da trama, pois reúne a bondade e inteligência, Cordélia apesar de bondosa não é esperta o suficiente para reverter a situação de seu pai. Edgar é esperto o suficiente para fugir e se disfarçar quando é caluniado, e salva o pai do suicídio. Por suas qualidades, esperteza e lealdade, apenas Kent e Edgar sobrevivem no fim da trama. Shakespeare contraria a lógica de Edmundo, quem sobrevive em tempos de desgraça não são mais fortes, mas sim os bons e inteligentes.

11- Em “Ética a Nicômaco” Aristóteles dizia que a ética não poderia ser discutida com jovens porque estes não tem experiência de vida suficiente para fazer julgamos de ética. Já em Shakespeare os velhos não sábios, como geralmente se espera, os velhos são cometem erros (Lear) e são enganados (Gloucester).

12 – Lear e o drama de não saber distinguir os afetos verdadeiros, diferenciar os amigos dos inimigos, em qualquer idade isso traz tragédia e desgraça.

13 – Lear quer se livrar da responsabilidade do poder, mas sem abdicar de seus privilégios e prestígios de monarca, mas quando deixa o poder só sobram os afetos verdadeiros (Cordélia, Kent, Gloucester), porém Lear é incapaz de reeguer-se do tombo que causou a si mesmo, a idade avançada e a decepção o levam a loucura.

14 – Na peça acontece a morte dos “pecaminosos” e dos “burros”, pois Lear altera a ordem natural das coisas, quando o rei não é o mais sábio, não há outra solução senão a morte para pôr fim a tragédia, e então haver o recomeço, dando início a um novo ciclo. Quando falta um líder política legítimo e digno é o caos. Edgar e Kent são os sobreviventes para um mundo melhor.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Heróis e História

Esta crônica de Luis Fernando Veríssimo sobre a história, é veladamente a visão marxista (materialismo histórico), e como brevíssima introdução, recomendo como base para uma interpretação marxista frisada por Patrícia Sanches sobre Rei Lear.

Heróis e História - Luis Fernando Veríssimo

Velha questão: são os homens providenciais que fazem a História ou é a História que os providencia? Estou pensando no Mandela. Ele sem dúvida fez história, mas o apartheid teria se mantido mesmo sem a resistência dramatizada na sua prisão e no seu sacrifício? Provavelmente não. Martin Luther King simbolizou a luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos, empolgou e inspirou muita gente, mas a injustiça flagrante da segregação racial estaria condenada mesmo sem seus discursos e seu exemplo. Frequentei uma "high school" americana durante três anos e todos os dias, antes de começarem as aulas, botava a mão sobre o coração e prometia lealdade à bandeira aos Estados Unidos da América a à república que ela representava, com liberdade e justiça para todos, e certamente não era só eu que completava, em silêncio, o juramento: "...exceto para os negros". Durante anos a democracia americana conviveu com imagens de discriminação racista, linchamentos e outra violência contra negros no sul do país. Variava apenas o grau de consciência em cada um da hipocrisia desta convivência cega. O que Martin Luther King fez foi tornar a consciência universal e a hipocrisia visível, e insuportável. Mas a justiça para todos viria - ou virá, ou tomara que venha, numa América ainda dividida pela questão racial, como mostra a revolta pela absolvição recente do assassino daquele garoto negro na Flórida - mesmo sem a sua retórica.

Gandhi liderou o movimento de resistência pacífica que ajudou a liberar a Índia do domínio inglês. Há figuras como Gandhi - mais ou menos pacíficas - em quase todas as histórias de liberação do jugo colonialista. Mas por mais atraente que seja a ideia de heróis emancipadores derrotando impérios, a verdade é que eles serviram uma inevitabilidade histórica, independente da sua bravura, do seu discurso ou, como Gandhi, do seu apelo espiritual. O poder da História de fazer acontecer o necessário, à revelia da iniciativa humana, soa como ortodoxia marxista, eu sei, mas consolemo-nos com a ideia de que a História pode nos ignorar, mas está do nosso lado.

E dito tudo isto é preciso dizer que poucas coisas na vida me emocionaram tanto quanto a aparição do Mandela antes do jogo final da Copa do Mundo na África do Sul, ovacionado pela multidão. Consequente ou não, ali estava um herói.