quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Rashomon nosso de cada dia






Em nosso primeiro encontro do CineFilô assistimos ao filme Rashomon de Akira Kurosawa, baseado nos contos "Dentro do bosque" e "Rashomon" de  R. Akutagawa.

A base do filme são as várias versões dos personagens sobre um mesmo acontecimento, o estupro de uma mulher e conseqüente morte do seu marido durante uma viagem.

Percebemos que os personagens se movem pelos seus interesses no relato dos acontecimentos, cada um conta sua versão de maneira que, apesar de estar em uma situação indigna, sua ação diante dela acaba tendo um mínimo de atitude digna. A viúva tenta manter sua dignidade de esposa desonrada relatando que tentou o suicídio após o ato consumado; o marido morto, intercedido por um médium, afirma que cometeu suicídio, pois este era o único caminho para sua dor e até mesmo o estuprador e assassino assume uma postura minimamente digna nos seus atos, justificando que foi por amor e mesmo não tendo a intenção de matar seu oponente, este morreu num duelo limpo.

Entre as várias discussões ocorridas no encontro, a mais acalorada foi uma comparação do filme com as notícias da imprensa sobre os black blocs e as passeatas. Moisés apontou pertinentemente que existem versões para tudo e perguntou sobre as razões da grande imprensa para as suas versões. Lembramos do episódio filmado de um policial que apanhou de uma série de manifestantes ou vândalos, como afirmam os jornalistas, durante a passeata do dia 25 de outubro no Parque D. Pedro. O mesmo incidente gerou comentários e versões nas redes sociais inversamente contrários um do outro. O vídeo na Mídia Ninja junto com a legenda parecia um ato de resistência, e o mesmo na G1, daria para se apiedar do policial. Diante dos mesmos episódios, assim como os personagens do filme, cada um verá e relatará os eventos imerso de interesse próprio, aspirações, espírito de corpo e, completo aqui, de espírito de porco (por que não?) se assim for conveniente. Quais então seriam os interesses da grande imprensa? A quem ela representa? O que importa de fato aos donos dos grandes veículos de comunicação? As perguntas soam até pueril e a resposta óbvia. 

Existe uma verdade diante da quebradeira dos caixas eletrônicos dos bancos? há justificativas plausíveis para atual situação das manifestações? Há um inconformismo contra o que? A quem interessa e a quem não interessa esta reação, violenta ou não, ainda que pacífica? Foi lembrando, que muitos atos de violência também foi cometido pela polícia.

No final do filme Rashomon é aberto à possibilidade de haver uma verdade neutra, um lenhador arrependido de seus atos decide contar os fatos como possivelmente ocorreram. Será que na vida real é possível haver diante de várias versões, alguém ou uma forma de contar um fato sem interesses pessoais, de classe ou de outra ordem?

Nas reuniões da Confraria Filosófica ao fazermos observações e comentários, tentamos buscar uma coerência e imparcialidade em nossas análises? Um meio termo talvez ou nossa ótica é sempre a partir do nosso interesse na questão? É consciente ou inconsciente esse processo?

Partindo do pressuposto que é impossível uma neutralidade, é possível nos aliarmos ao lado certo ou ao bom caminho? Existe o lado certo?

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Confraria em módulo “cinefilô”

A Confraria Filosófica pretende tornar-se mais cinéfila nos próximos encontros, atendendo a aspirações já antigas do grupo.

Norteados pelo livro A história da filosofia em 40 filmes de Alexandre Costa e Patrick Pessoa, professores de Filosofia da Universidade Federal Fluminense, pensamos em repetir a experiência destes autores e seguir o roteiro proposto no livro.


Tema 1 – O que é filosofia?

Rashmon (Akira Kurosawa)
Persona (Ingmar Bergman)
Stalker (Andrei Tarkovski)
Blow up (Michelangelo Antonioni)

Tema 2 – Questões estéticas

Morte em Veneza (Luchino Visconti)
8 ½ (Frederico Fellini)
Cidade dos sonhos (David Lynch)
Asas do desejo (Wim Wenders)

Tema 3 – Mito e tragédia

Medeia (Pier Paolo Pasolini)
Oldboy (Chan-wook-Park)
Ladrões de bicicleta (Vittorio De Sica)
Crimes e pecados (Woody Allen)

Tema 4 – O existencialismo

A doce vida (Frederico Felini)
Estranhos no paraíso (Jum Jarmush)
Acossado (Jean-Luc Godard)
As coisas simples da vida (Edward Yang)

Tema 5 – O amor em fuga

Aurora (F.W. Murnau)
Janela indiscreta (Alfred Hitchcock)
Todas as mulheres do mundo (Domingos Oliveira)
O último metrô (François Truffaut)

Tema 6 – Morte e infinitude

Nosferatu, o vampiro da noite (Werner Herzog)
Hiroshima me amor (Alain Resnais)
Paris, Texas (Wim Wenders)
O sétimo selo (Ingmar Bergman)

Tema 7 – História e violência

Ricardo III (Al Pacino)
Machbeth (Roman Polanski)
Dogville (Lars von Trier)
Marcas da violência (David Cronenberg)

Tema 8 – O fascismo hoje

M, o vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang)
Taxi Driver (Martin Scorcese)
Apocalypse now (Francis Ford Coppola)
Laranja mecânica (Stanley Kubrick)

Tema 9 – Cinema e revolução

O anjo exterminador (Luis Buñuel)
O encouraçado Potemkin (Sergei Eisentein)
O homem sem passado (Aki Kaurismaki)
Nós que nos amávamos tanto (Ettore Scola)

Tema 10 – O cinema nacional e a interpretação do Brasil

São Bernardo (Leon Hirsman)
Deus e o Diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
Brás Cubas (Julio Bressane)
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O retrato de Dorian Gray: minha resenha do Skoob

Li O retrato de Dorian Gray pela primeira vez em 2010. Guardei minhas citações favoritas do livro no Skoob, pois as achei muito preciosas, dignas de serem lembradas para sempre, confesso que não esperava ser surpreendida por tantas frases impactantes. E no fim do livro me senti inspirada até para fazer espontaneamente uma resenha, que também está no meu perfil da rede social de leitores.

Bonitinho e nada ordinário.

"Dorian Gray pôs a vaidade acima da felicidade, foi seu erro e sua perdição. Buscando sempre o prazer em cada experiência vivida, sem considerar os sentimentos alheios, ele arruinou a vida de várias pessoas, cometeu crimes e sujou sua alma. Se a verdadeira beleza consiste na interior porque é aquela que cultivamos e não aquela que recebemos ao nascer e da qual nenhuma culpa temos, pois não escolhemos a nossa aparência física, Dorian só descobre isso no final de sua vida, ao perceber que se tornou um monstro. A sua aparência era perfeita, mas sua presença era maligna, seu rastro era de desgraça, quem andava com Dorian acabava mal, aos poucos as pessoas foram percebendo sua perversidade, sua falta de consciência e de culpa por seus atos. Morre arrependido, percebendo que jogou sua vida fora atrás de algo que em troca não lhe trouxe nenhuma vantagem. Os aprendizados que a vaidade lhe trouxe não o fizeram um homem mais sábio, nem ser mais querido ou ter mais amigos. A influência de "amigos" que inclusive foi um dos temas mais marcantes na história, a presença de Lord Henry, uma má influência, por sinal, um homem que vira a cabeça de Dorian com suas ideias charlatãs sobre a vida, a arte e a juventude. Se fosse um conto com personagens tipo: Lord Henry seria o diabinho, Basil seria o anjinho e Dorian o parvo. Uma história que faz pensar muito sobre as escolhas que fazemos na vida, nas más influências dos amigos, na valorização exacerbada da juventude, como se a felicidade só pudesse ser alcançada quando jovens. Uma pena que a redenção de Dorian venha com o seu suicídio, foi uma vida perdida, tantos talentos a serem desenvolvidos, mas todo seu potencial foi usado para más ações. Dorian não transcende o dilema do fim da juventude, e acho que o nós, seres humanos, também ainda não transcendemos, o que Oscar Wild nos deixa é uma pergunta sobre como lidar com o fim da juventude e consequentemente com o fim da vida."

Citações favoritas - O retrato de Dorian Gray



Estas são as minhas citações favoritas do livro O retrato de Dorian Gray, que foram salvas originalmente na minha conta do Skoob em 2010, quando li a versão da L&PM Pocket.

O retrato de Dorian Gray - edição L&PM Pocket


"Pois a beleza não fora senão uma máscara, e a juventude uma zombaria." (p.241)

"(...) o que mais o preocupava era a morte em vida da própria alma." (p. 241)

"A arte não tem qualquer influência sobre a ação. É estéril, em sua soberba. Os livros que o mundo chama de imorais são livros que mostram ao mundo a própria vergonha." (p. 238)

"A vida é uma questão de nervos, fibras, de células, construídas aos pouquinhos, em que o pensamento se esconde e a paixão sonha." (p. 237)

97% (236 de 244)

"É um absurdo dizer que a juventude é ignorante." (p. 236)

"A tragédia da velhice não é a existência do velho, mas sim, a existência do jovem." (p. 236)

"Pensei em ir dizer ao profeta que arte possui alma, mas o homem não. Receio, entretanto, que ele não me iria compreender." (p. 235)

"As coisas de que temos certeza absoluta jamais são verdadeiras. É esta a fatalidade da fé, a lição do romance." (p. 235)

"- Quando um homem trata a vida com arte, o cérebro é o próprio coração." (p. 234)

"– Por falar nisso, Dorian, “qual a vantagem de um homem em conquistar o mundo inteiro e perder” – como é mesmo a citação? – “a própria alma”?" (p. 234)

"Não devemos fazer nada sobre que não possamos conversar depois do jantar." (p. 233)

"Todo crime é vulgar, assim como toda vulgaridade é crime." (p. 232)

"Qualquer um pode ser bom no campo; não tentações. Eis o motivo por que as pessoas que vivem fora da cidade são tão pouco civilizadas. A civilização não é, de maneira alguma, coisa fácil de se atingir, e há apenas duas maneiras por que o homem é capaz de alcançá-la. Uma delas, sendo culto, e a outra, sendo corrupto. Como as pessoas do campo não tem a oportunidade de ser nem um coisa nem outra, estagnam." (p. 229)

"- Sabê-lo seria fatal. O encanto está na incerteza. A bruma torna as coisas maravilhosas." (p. 225)

  Gosto muito da Duquesa, mas não a amo. 
– E a Duquesa o amo muito, mas não gosta tanto. Portanto, uma combinação excelente." (p. 223)

"– A base de todo escândalo é uma certeza imoral." (p. 223)

"- Neste mundo, Dorian, a única coisa horrível é o tédio. Eis o único pecado para o qual não há perdão." (p.222)

"Você tem, do mundo, tudo o que um homem pode querer. Não há um só que não queira trocar de lugar com você. – E não há um só com quem eu não trocaria de lugar Harry." (p.222)

"Não sinto pavor da morte, o que me aterroriza é a aproximação da morte." (p. 222)

"(...) doente, com um medo alucinado da morte e, ao mesmo tempo, indiferente à vida." (p. 218)

"A vida real era sempre um caos, mas havia, na imaginação, algo de uma lógica terrível." (p. 218)

"No mundo ordinário do fato, os maus não eram punidos, e nem os bons recompensados. O sucesso era lançado sobre os fortes, e o fracasso, sobre os fracos." (p. 218)

"-Descreva o nosso sexo – veio o desafio. - Esfinges sem segredos." (p. 217)

"- A arte romântica começa pelo clímax."(p. 217)

"- Que crianças queimadas gostam de fogo." (p. 216)

"Quem quer ser popular, tem que ser uma mediocridade." (p. 215)

"Nós mulheres, como alguém já disse, amamos com nossos ouvidos, assim como vocês homens, amam com os olhos. Isto é, se é que amam." (p. 215)

"– Eu jamais procurei a felicidade. De que vale a felicidade? De minha parte, sempre procurei o prazer." (p. 215)

"Definir é limitar" (p. 214)

"É a triste realidade, perdemos a faculdade de darmos nomes bonitos às coisas. Os nomes são palavras. Por este motivo odeio o realismo vulgar na literatura. O homem que consegue chamar a espada de espada deveria ser compelido a usá-la, pois, para isto, apenas isto, que serve." (p. 212)

"- Eu anuncio as verdades do amanhã. - Pois eu prefiro os erros de hoje."  (p. 212)

"- Eu jamais enristo com beleza. - É esse seu erro, Harry, acredite. Você dá excessivo valor à beleza. - Não fale assim. Acredito, admito, que é melhor ser bela do que generosa. Mas, por outro lado, ninguém mais do que eu, está preparado para reconhecer que é melhor ser generoso que feia." (p. 212)

 "- A fealdade, Gladys, é uma das sete virtudes capitais. Você, como uma boa tóri, não deve subestimá-las. A cerveja, a Bíblia e as sete virtudes capitais fazem da Inglaterra o que ela é hoje. - Você, então, não gosta de seu país? - Eu vivo nele."  (p. 212)

"Há momentos, dizem-nos os psicólogos, quando a paixão pelo pecado, ou por aquilo que o mundo chama de pecado, domina de tal maneira uma personalidade, que toda fibra do corpo, e toda célula do cérebro, parece ser instinto com impulsos receosos. Nesses momentos, homens e mulheres perdem a liberdade da vontade. Como autômatos, dirigem-se ao fato terrível. A escolha é-lhes subtraída, e a consciência, morta, ou então, se conseguir viver, vive apenas par dar fascínio à revolta, e encanto à desobediência. Pois todos os pecados, como não se cansam de nos lembrar os teólogos, são pecados da desobediência. Quando, dos céus, cai o espírito maior, a estrela matutina do mal, é como rebelde que cai." (p. 208)

"Cada um vive a própria vida, e paga o preço de viê-la. Em tudo, a única pena é que com freqüência, temos que pagar um preço alto por uma única falta. E, na verdade, estamos sempre a pagar. No trato com o homem, o Destino jamais encerra as contas." (p. 207)

"Não aguento mulheres que amam. Mulheres que odeiam são bem mais interessantes." (p. 206)

"Diz-se que paixão nos faz pensar em círculos." (p. 204)

"(...) e o desejo louco de viver, o mais terrível de todos os apetites do homem, transformou, célebre, em força, todos os nervos e fibras trêmulas." (p. 204)

"A fealdade era a única realidade. O burburinho grosseiro, o antro repugnante, a violência crua da vida desordenada, a vileza íntima do ladrão e do proscrito, eram mais vívidos, com a atualidade intensa da impressão que causam, que todas as formas graciosas de arte, as sombras oníricas da canção." (p. 204)

"Dorian Gray observava a vergonha sórdida da cidade grande e, de vez em quando, repetia as palavras de Lorde Henry no dia em que se conheceram: “Curar a alma por meio dos sentidos, e os sentidos, por meio da alma.” (p. 202)

"- Ele me aborrece demais, quase tanto quanto a aborrece. Ela é muito esperta; para uma mulher, esperta demais. Carece do charme indefinível da fragilidade. É o pedestal de barro que faz precioso o ouro da imagem, e ela embora de pés lindos, não possui pés de barro. Digamos talvez, que ela possui pés de porcelana alva, que já caminharam sobre o fogo. E o que o fogo não destrói, enrijece. Ela tem suas experiências." (p. 199)
06/12/2010
81% (197 de 244)

"- Gosto de homens que tenham futuro, e de mulheres que tenham passado. Ou será que isto ia dar em festinha de criança?" (p. 197)

"Quando a mulher se casa de novo, é porque detestava o marido anterior. E o homem, quando se casa de novo, é porque adorava a última mulher. As mulheres tentam a sorte; os homens arriscam-na.” (p. 196)

“(...) hoje em dia, todos os homens casados vivem como solteiros, e todos os solteiros, como casados." (p. 196)

"Neste país, basta que um homem possua distinção e cérebro para que a língua comum faça dele galhofa. E que tipo de vida levam estas pessoas que posam como moralistas? Meu caro companheiro, você já esqueceu que vivemos na terra natal da hipocrisia? – Dorian! Não é esse o problema. Sei que a Inglaterra é ruim, e que a sociedade inglesa está toda errada. [...] Temos todo o direito de julgar um homem pelo efeito que causa nos amigos, e o efeito que você causa parece desprovido de qualquer sentido de honra, bondade ou pureza. Você os encheu da loucura do prazer, e eles desceram às profundezas." (p. 167)

"O pecado sempre se inscreve no rosto dos homens, impossível escondê-lo." (p. 166)

"Dorian Gray fora envenenado por um livro. Momentos houve em que ele olhara a maldade como um simples modo de poder realizar sua concepção do belo." (p. 163)

"Sentia que as conhecia todas, aquelas figuras terríveis, singulares, que atravessaram o palco do mundo e fizeram do pecado algo tão maravilhoso e, do mal, algo tão cheio de sutiliza. A ele parecia que, de um modo algo misteriosos, aquelas vidas foram sua própria vida." (p. 160)

"A sociedade, ao menos a sociedade civilizada, não está preparada para acreditar em qualquer coisa que venha em detrimento dos que são, ao mesmo tempo, ricos e fascinantes.” (p. 158)

“Pois os cânones da boa sociedade são, ou deveriam ser, os mesmos que os cânones da arte. Para ela, de modo absoluto, a forma é essencial. Ela almeja a dignidade, e também a irrealidade, de uma cerimônia, e a combinação da natureza insincera de uma peça romântica com a sabedoria e a beleza que fazem com que tais peças nos sejam deliciosas. A insinceridade é assim tão terrível? Creio que não. É um simples método por que podemos multiplicar nossas personalidades." (p. 158)

"Estes tesouros, pois, e tudo o que colecionava em sua residência adorável, eram, para ele, meios de esquecimento que poderia escapar, por uma estação, do medo que parecia, a ele, às vezes, grande demais para ser suportado." (p. 156)

"(...) quase entristeceu-se ao refletir sobre a ruína que o tempo trazia às coisas lindas e maravilhosas. Ele, de um jeito ou de outro, conseguira escapar." (p. 153)

"Ainda, como já se dissera dele antes, nenhuma teoria da vida parecia, a ele, importante, quando comparada com a própria vida. Sentia a consciência aguçada de quão estéril é toda a especulação intelectual quando apartada da ação e do experimento. Sabia que os sentidos, não menos que a alma, têm seus mistérios espirituais a revelar." (p. 148)

"(...) pensava na ruína que trouxera á própria alma, com uma pena que, de puro egoísmo, era ainda mais dolorosa. Eram raros, porém, momentos tais. Aquela curiosidade a respeito da vida, nele desperta, pela primeira vez, por Lorde Henry, quando sentados no jardim do amigo comum, parecia aumentar em gratificação. Quanto mais conhecia, tanto mais desejava conhecer. Assolavam-no fontes alucinantes que, à medida que as alimentava, esfaimavam-se ainda mais." [...] o tipo que combinava a cultura real do erudito, com toda a graça, distinção e os modos perfeitos de um cidadão do mundo.” (p. 144)

“Assim como Gautier, Dorian era alguém para quem “existia o mundo visível”. (p. 144)
“E, é claro, a vida em si, para ele, era a primeira, a maior das artes, para a qual todas as demais artes pareciam apenas uma preparação." (p. 144)

"Basil, tê-lo-ia ajudado a resistir à influência de Lorde Henry, e às influências ainda mais venenosas oriundas de seu próprio temperamento." (p. 134)

"A forma e a cor nos dizem da forma e da cor, e só. A mim me parece, com freqüência, que a arte, muito mais do que revelar o artista, o esconde de modo ainda mais categórico." (p. 130)

"Dorian desde o primeiro momento em que o conheci, sua personalidade teve, sobre mim, uma influência extraordinária. Fiquei dominado, alma, cérebro e energia, por você. Para mim, você era a encarnação visível daquele ideal oculto cuja lembrança nos assedia, na os artistas, como um sonho exótico. Idolatrarei você. Senti ciúmes das pessoas com que você falava. Queria tê-lo todo para mim. Sentia-me feliz apenas quando estava com você. E nas vezes em que Steve longe de mim, ainda assim estava presente em minha arte... O que eu sabia, apenas, é que havia deparado, frente a frente, com a perfeição, e que o mundo se havia se transformado, aos meus olhos, num mundo maravilhoso.” (p. 129)

E fora tudo o que deve ser arte: inconsciente, ideal e remota." (p. 129)

"Ser o espectador de nossa própria vida é, como diz Harry, fugir ao sofrimento dela." (p. 125)

"Não fale de coisas horríveis. Se não falarmos delas, deixam de ter acontecido. É a simples expressão, como diz Harry, que dá realidade às coisas." (p. 122)

"Mas quem, que nada sabe da vida, não se entregaria à oportunidade de permanecer sempre jovem, por mais que fosse fantástica a oportunidade, por mais conseqüências fatídicas que carregasse?" (p. 120)

"A partir do momento em que ela tocou a vida real, estragou-a, e a vida a estragou, então ela se foi. (p. 118)

“- A vida tem tudo guardado pra você, Dorian. Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer. – Mas suponha, Harry, que eu me torne macilento, velho e enrugado. O que acontecerá? - Então, meu caro Dorian, você teria que lutar por suas vitórias. Como as coisas estão postas, as vitórias vêm a você. Não, você deve conservar sua beleza. Vivemos numa era que, por tanto ler, não pode ser inteligente, e que, por muito pensar, não pode se bela." (p. 118)

"Mas, na verdade, Dorian, Sybil Vane deve ter sido muito diferente de todas estas mulheres que encontramos por aí. (...) Elas nos fazem acreditar na realidade das coisas com que todos temos que jogar, como o romance, a paixão, o amor. - Eu fui muito cruel com ela. Já se esqueceu? - Receio que as mulheres gostem de crueldade, da crueldade sem-cerimônia, mais do que qualquer outra coisa. Possuem instintos primitivos maravilhosos. Nós as emancipamos, mas elas, como escravas, seguem à procura de seus donos. É tudo a mesma coisa. Adoram se dominadas.” (p. 117)

“Ela, na verdade, nunca viveu e, portanto, nunca morreu." (p. 117)

"Além disso, o que mais deixa uma mulher vaidosa é dizer a ela que é uma pecadora." (p. 116)

"Teria feito com que eu amasse o amor pelo resto da minha vida.” (p. 115)

“Certa vez, durante toda uma estação, usei violetas como forma de luto artístico por um romance que não queria morrer. Mas, enfim, morreu, e não me lembro o que o matou." (p. 115)

"Lembro de ouvi-lo dizer, um dia, da fatalidade que envolve as boas decisões; quando as tomamos, já é tarde demais. A minha, na certa, veio tardia."

(p.114)

"- Meu caro Dorian. O único modo por que a mulher consegue reformar um homem é entediando-o ao máximo, até fazê-lo perder todo o interesse na vida. Se você se tivesse casado com esta mulher, estaria desgraçado. Claro, você a trataria bem. Sempre podemos ser generosos para com pessoas a quem não ligamos nem um pouco. E ela logo descobriria sua absoluta indiferença para com ela. E quando a mulher descobre isto a respeito do marido, ou passa a andar esmolambada, ou, ou passa a usa chapéus vistosos, adquiridos por maridos de outras mulheres." (p. 113)

"Matei-a, como se lhe tivesse cortado a garganta com uma faca. E nem por isso as rosas estão menos bonitas. No meu jardim, os pássaros continuam a cantar com a mesma felicidade. E hoje à noite, vou jantar com você, depois irei a Ópera, e depois, creio, irei cear em algum lugar. A vida é mesmo muito dramática! Se eu tivesse lido tudo isto num livro, Harry, acho que teria chorado. Bem, mas agora que a coisa aconteceu de fato, parece, a mim, maravilhosa demais para comportar lágrimas." (p.112)

"Aqui, não devemos debutar com escândalos, devemos reservá-los para chamar a atenção sobre nós, quando envelhecemos" (p.111)

"- Passei mesmo por isto. Mas agora, estou bem feliz. Para começar, já sei o que é a consciência. Não é o que você me disse que era. É a coisa mais divina que temos em nós. Não zombe. Nunca mais, Harry... ao menos, na minha frente. Eu quero ser bom. Não suporto a idéia de possuir uma alma repulsiva.
- Que base artística, muito encantadora, pra a ética Dorian!" (p. 110)

"Uma coisa, porém, ele sentia, o quadro fizera por ele. Fizera-o consciente de quão injusto, quão cruel, fora para com Sibyl Vane. Mas ainda havia tempo para a reparação, e ela ainda poderia ser sua esposa. Aquele amor irreal, egoísta, capitularia diante de alguma influência superior, seria transformado em alguma paixão mais nobre, e o retrato, pintado por Basil Hallward, seria, para ele, por toda a vida, um guia, seria, para ele, o que o sacro é para uns, e a consciência, para outros, e o temor a Deus, para todos nós. Existem opiatos para o remorso, drogas capazes de acalentar ao sono o sentido moral. Eis um símbolo visível de degradação do pecado. Eis um sinal onipresente da ruína que os homens trouxeram para suas almas. (p.109)

“Há, na auto-reprovação, uma certa suntuosidade. Quando nos acusamos, sentimos que ninguém, mais tem o direito de acusar-nos. É a confissão, e não padre, que nos dá a absolvição. Ao terminar a carta, Dorian já se sentia perdoado." (p.109)

"Havia uma conta meio salgada, de um estojo de toucador Luís Quinze, em prata entalhada, que ainda não tivera a coragem de enviar aos tutores, pessoas demasiado antiquadas, incapazes de perceber que vivemos numa era em que as coisas desnecessárias são nossas únicas necessidades” (p.107)

"Logo que se vestiu, foi à biblioteca (...)" (p.107)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caminhos inglórios

No último encontro da Confraria Filosófica, em que lemos O Rei Lear, a Jess e eu cogitávamos sobre uma frase de Edmundo que chamou muito a nossa atenção:

Edmundo: Eis a sublime estupidez do mundo; quando nossa fortuna está acabada – muitas vezes pelos excessos de nossos próprios esforços de nossos próprios atos – culpamos o sol, a lua e as estrelas pelos nossos desastres; como se fôssemos canalhas por necessidade, idiotas por influência celeste; escroques, ladrões e traidores por comando do zodíaco; bêbados, mentirosos e adúlteros por força da obediência a determinações dos planetas; como se toda perversidade que há em nós fosse pura instigação divina. É admirável a desculpa do homem devasso – responsabiliza uma estrela por sua devassidão. Meu pai se entendeu com minha mãe sob a Ursa Maior; porquanto devo ser lascivo e perverso. Bah! Eu seria o que sou, mesmo que a estrela mais virginal do firmamento tivesse iluminado a minha bastardia. (ATO I, CENA III, p.22)

Depois achei esta frase de Kent que defende uma ideia completamente contrária à de Edmundo.

Kent: São as estrelas, as estrelas que acima de nós governam nossos temperamentos. Senão um mesmo casal não poderia gerar filhos tão diferentes. (ATO IV, CENA III, p.103)

A princípio parece meio incipiente a discussão, se os astros influenciam ou não a nossa personalidade. Mas a real pergunta de Kent e de Edmundo é de onde vem a maldade no ser humano. É inerente, como diz Edmundo, ou tem fatores externos, como diz Kent?

A revista Época da semana passada (6 agosto de 2013) traz essa mesma indagação, com o vilão Félix (Mateus Solano), da novela Amor à Vida na capa.


Edmundo na pós-modernidade?
A reportagem da revista Época aborda basicamente a relação entre a biologia humana e os crimes, apresentando vários casos em que os criminosos tinham alguma disfunção hereditária no cérebro. Será que somos biologicamente programados para fazer o mal? Até que ponto pode a genética influenciar? Na reportagem apesar de constatarem a influência de problemas neurológicos em vários criminosos, os cientistas também admitem que o cérebro é capaz de mudar de acordo com as atitudes do sujeito. Isto é, mesmo um cérebro com disfunção para sentir emoção e empatia, como é o caso de psicopatas, este seria moldável por fatores externos (não biológicos). Além disso, o texto afirma que a maioria dos criminosos na sociedade não tem disfunção cerebral alguma e que muitos indivíduos com disfunção cerebral para emoções e empatia nunca se torna um criminoso.

Segundo a teoria behaviorista de Skinner nossa personalidade ou comportamento é determinado pelo tripé: organismo (predisposição biológica), ambiente (cultura) e história de vida do indivíduo. Astros e estrelas celestes ficam de fora. 

O que está em evidência o tempo todo na peça de Shakespeare é o individuo e seus atos de nobreza ou vilania, de honra ou desonestidade, bem ou mal. O que faz com que filhas de mesmo pai e mesma mãe, sejam tão diferentes? – é a real pergunta de Kent. 

Certa vez conversando com meu avô, eu dizia que meus irmãos iriam, sim, por um bom caminho na vida, fariam faculdade também, pois a criação era a mesma e tal. E aí meu avô me perguntou: 

- Beatriz, os dedos das mãos são todos iguais?
- Não
- E todos dedos vêm da mesma mão e do mesmo braço, não é?
- É.
- Então por que você e seus irmãos seriam iguais só por que vem dos mesmos pais?
- !?!? (Um a zero pro meu vô...)

Gattaca
O filme Gattaca – Experiência genética (spoilers) trata de mais um fator comportamental que é desconsiderado na teoria de Skinner – a escolha. Pois bem, a personagem principal do filme, Vincent, é um homem imperfeito biologicamente, pois foi gerado de maneira natural, sem manipulação genética para ter olhos de determinada cor, aptidão para música, outros talentos etc. Teoricamente, além de Vincent ser o mais feio e "burro" em comparação com os demais, ele também deveria ser violento, imprevisível e o suspeito principal de um assassinato. Mas e a escolha individual de Vincent? Suas ambições? Suas aspirações? Quem ele deseja ser na vida? Como ele quer viver sua vida? Isso é sempre determinado pelos genes? Esse é o questionamento do filme.

Já na peça de Shakespeare, Edmundo, filho bastardo do duque de Gloucester, exime as estrelas de culpa por sua maldade e assume que é do jeito que é porque quer.

 
                                                 Memepedia YouPIX


Me pergunto qual seria a solução para a maldade. Será que a disciplina da Ética ensinada por Aristóteles seria realmente capaz de eliminar a maldade? Ou será que Sócrates conseguiria convencer aos maus pela lógica que os caminhos inglórios não valem a pena. Ou será ainda, como sugeriu Félix na cena acima, que a psicoterapia seria capaz de tornar honesto um sujeito torto? 


Laranja mecânica, 1971
Outros filmes e livros também abordam a questão da possível recuperação da delinquência. Um dos mais famosos é o Laranja Mecânica.

No fim da história de Shakespeare, Edmundo tenta se redimir fazendo seu único ato bom na história:

Edmundo: Anseio pela vida; quero fazer algo de bom a despeito de minha natureza... Depressa mandem alguém ao castelo...Não percam tempo...eu dei ordem...escrevi...condenado à morte Cordélia e o Rei. Corram enquanto é tempo. (ATO V, CENA III, p.136)

Fernando Savater, em seu livro A importância da escolha, tem uma frase interessante sobre a liberdade de escolher entre fazer o bem ou o mal, ou por a culpa nas circunstâncias ou no genoma: 

“O curioso dessas próteses que aliviam a responsabilidade é que funcionam só para a culpa, jamais para o mérito. Nenhum ganhador do Prêmio Nobel ou alpinista que chega ao cume do Everest dilui o fulgor de sua façanha atribuindo-a as suas condições sociais ou à sua feliz dotação genética: foram eles mesmos, contra ventos e marés adversos, quem estudaram, quem esforçaram, derrotaram a incompreensão e as dificuldades, etc. Somo excelentes graças a nós mesmos, mas somos maus e deficientes apesar de nós mesmos.” (p. 70)

Edmundo e Félix possuem vários pontos em comum: filhos relegados pelos pais, inveja dos irmãos, a ambição de conseguir seus objetivos por meios ilegais e sem escrúpulos, noção reduzida do perigo, pois armam seus golpes e mentiras, com a certeza de não serem punidos, e o desejo de poder que os guia a querer cada vez mais. Esses dois personagens que nasceram "desprivilegiados", teriam tudo para se tornarem vítimas, mas resolveram tornarem-se algozes. 

E por último, a reportagem da revista Época nos lembra de que biologia não é destino, pois ainda nenhum cientista ou filósofo conseguiu desvendar totalmente o que se passa nos territórios mais escuros da alma humana.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Retrato de Dorian Gray - Prefácio

Crédito da imagem:
diariodeumadiretora.blogspot.com.br
"O artista é o criador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte. O crítico é aquele que sabe traduzir de outra maneira ou com material diferente a sua impressão das coisas belas. A mais alta, assim como a mais baixa, forma de crítica é uma autobiografia. Aqueles que encontram feias significações nas coisas belas são corruptos sem serem encantadores. É um defeito. Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança. São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza. Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais. A antipatia do século XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho. A antipatia do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho. A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar o que quer que seja. Até as coisas verdadeiras se podem provar. Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo. O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo. O pensamento e a linguagem são para o artista instrumento de arte. O vício e a virtude são para o artista materiais de arte. Sob o ponto de vista da forma, o tipo de todas as artes é a arte do músico. Sob o ponto de vista do sentimento, o tipo é a profissão do actor. Toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Aqueles que descem além da superfície fazem-no com risco seu. O mesmo sucede àqueles que lêem o símbolo. É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte. A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital. Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo."


Oscar Wilde – Prefácio de "O retrato de Dorian Gray". O retrato de Dorian Gray. Tradução de Lígia Junqueira. 2. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012. p.5

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Rei Lear – William Shakespeare

Confraria filosófica – 04/08/2013

Alguns pontos discutidos no encontro:

1- Edmundo zomba que quem acredita que os astros influenciam na personalidade do homem, ele acredita que seria tão maldoso quanto é mesmo que tivesse nascido na lua mais cândida.

2 – Edmundo diz que a natureza é sua deusa, isto é, a natureza do mais forte, do mais esperto, daquele que pode mais sobre os demais.

3 – A burrice da velhice de Lear, o orgulho e a arrogância de sua personalidade, pois não aceita ser aconselhado por Kent. A credulidade de Gloucester em seu filho bastardo. A falta de desconfiança desses dois pais, que acreditaram serem enganados por seus filhos favoritos (Cordélia e Edgar).

4 – A maldade de Edmundo que se assemelha a outras peças de Shakespeare, como Ricardo III.

5 – A valorização da hipocrisia na corte de Lear, e a ambição sem limites de suas filhas desnaturadas.
 Imagem retirada daqui: http://goo.gl/XQmrHG
6 – Cordélia ao não se pronunciar devidamente como o pai esperava foi teimosa e infantil ou sofreu apenas por sua falta de jeito, inteligência e maturidade para se expressar como convinha? Cordélia não era casada como suas irmãs, era a mais nova e inexperiente, contava apenas com o auxílio de sua ama.

7 – Política, poder e bajulação andam sempre juntos.

8 – Drama pessoal de sucessão hierárquica que todo homem rico e poderoso passa, não apenas o rei Lear, mas também Gloucester.

9 – Presença forte de mulheres gananciosas, inescrupulosas e políticas, as irmãs Goneril e Regana se assemelham a Lady Macbeth. Desejo pelo poder e maldade independem de gênero.

Raul Cortez - Rei Lear (2000)
Imagem retirada daqui: http://goo.gl/9D6O5t
10 – Kent é o herói da trama, pois reúne a bondade e inteligência, Cordélia apesar de bondosa não é esperta o suficiente para reverter a situação de seu pai. Edgar é esperto o suficiente para fugir e se disfarçar quando é caluniado, e salva o pai do suicídio. Por suas qualidades, esperteza e lealdade, apenas Kent e Edgar sobrevivem no fim da trama. Shakespeare contraria a lógica de Edmundo, quem sobrevive em tempos de desgraça não são mais fortes, mas sim os bons e inteligentes.

11- Em “Ética a Nicômaco” Aristóteles dizia que a ética não poderia ser discutida com jovens porque estes não tem experiência de vida suficiente para fazer julgamos de ética. Já em Shakespeare os velhos não sábios, como geralmente se espera, os velhos são cometem erros (Lear) e são enganados (Gloucester).

12 – Lear e o drama de não saber distinguir os afetos verdadeiros, diferenciar os amigos dos inimigos, em qualquer idade isso traz tragédia e desgraça.

13 – Lear quer se livrar da responsabilidade do poder, mas sem abdicar de seus privilégios e prestígios de monarca, mas quando deixa o poder só sobram os afetos verdadeiros (Cordélia, Kent, Gloucester), porém Lear é incapaz de reeguer-se do tombo que causou a si mesmo, a idade avançada e a decepção o levam a loucura.

14 – Na peça acontece a morte dos “pecaminosos” e dos “burros”, pois Lear altera a ordem natural das coisas, quando o rei não é o mais sábio, não há outra solução senão a morte para pôr fim a tragédia, e então haver o recomeço, dando início a um novo ciclo. Quando falta um líder política legítimo e digno é o caos. Edgar e Kent são os sobreviventes para um mundo melhor.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Heróis e História

Esta crônica de Luis Fernando Veríssimo sobre a história, é veladamente a visão marxista (materialismo histórico), e como brevíssima introdução, recomendo como base para uma interpretação marxista frisada por Patrícia Sanches sobre Rei Lear.

Heróis e História - Luis Fernando Veríssimo

Velha questão: são os homens providenciais que fazem a História ou é a História que os providencia? Estou pensando no Mandela. Ele sem dúvida fez história, mas o apartheid teria se mantido mesmo sem a resistência dramatizada na sua prisão e no seu sacrifício? Provavelmente não. Martin Luther King simbolizou a luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos, empolgou e inspirou muita gente, mas a injustiça flagrante da segregação racial estaria condenada mesmo sem seus discursos e seu exemplo. Frequentei uma "high school" americana durante três anos e todos os dias, antes de começarem as aulas, botava a mão sobre o coração e prometia lealdade à bandeira aos Estados Unidos da América a à república que ela representava, com liberdade e justiça para todos, e certamente não era só eu que completava, em silêncio, o juramento: "...exceto para os negros". Durante anos a democracia americana conviveu com imagens de discriminação racista, linchamentos e outra violência contra negros no sul do país. Variava apenas o grau de consciência em cada um da hipocrisia desta convivência cega. O que Martin Luther King fez foi tornar a consciência universal e a hipocrisia visível, e insuportável. Mas a justiça para todos viria - ou virá, ou tomara que venha, numa América ainda dividida pela questão racial, como mostra a revolta pela absolvição recente do assassino daquele garoto negro na Flórida - mesmo sem a sua retórica.

Gandhi liderou o movimento de resistência pacífica que ajudou a liberar a Índia do domínio inglês. Há figuras como Gandhi - mais ou menos pacíficas - em quase todas as histórias de liberação do jugo colonialista. Mas por mais atraente que seja a ideia de heróis emancipadores derrotando impérios, a verdade é que eles serviram uma inevitabilidade histórica, independente da sua bravura, do seu discurso ou, como Gandhi, do seu apelo espiritual. O poder da História de fazer acontecer o necessário, à revelia da iniciativa humana, soa como ortodoxia marxista, eu sei, mas consolemo-nos com a ideia de que a História pode nos ignorar, mas está do nosso lado.

E dito tudo isto é preciso dizer que poucas coisas na vida me emocionaram tanto quanto a aparição do Mandela antes do jogo final da Copa do Mundo na África do Sul, ovacionado pela multidão. Consequente ou não, ali estava um herói.

sábado, 27 de julho de 2013

O escravo, o pobre, o feio e a tal felicidade



O escravo, o pobre, o feio e a tal felicidade


O romântico: "Dinheiro não traz felicidade".
O cínico: "Mas manda buscar!"

A relação do dinheiro com a felicidade não é uma questão nova, 350 anos a.C., em Ética a Nicômaco, Aristóteles indicava o consenso no qual os desafortunados e os feios dificilmente seriam felizes. Quanto aos escravos, a possibilidade seria nula. Vou me ater somente aos desafortunados e aos escravos, a questão "os feios e a felicidade" deixo como sugestão aos interessados.


Autonomia - chave para a felicidade

Se em Aristóteles a felicidade é o maior bem, posto que ela é o único bem com um fim em si mesmo, vejo então o dinheiro como o símbolo de todos os prazeres, o suprassumo da representação destes por poder comprar a todos praticamente. Pelo fascínio e domínio que exerce, é para muitos a própria felicidade.

Aristóteles se aproxima mais de Epicuro (341-269 a.C.) do que ao cínico, este também reconhecia a necessidade da autossuficiência, mas em um nível menos exigente de consumo. Epicuro advogava que pão e água é uma excelente refeição, buscava a autossuficiência numa espécie de comunidade alternativa (Jardim), onde procurava prover de tudo o que fosse minimamente necessário. Para Epicuro "o melhor da autossuficiência é a liberdade".

Nesse contexto, o cínico encontra apoio em Aristóteles em parte:

"as pessoas não precisam de muitas e grandes coisas para ser felizes, simplesmente por que não podem ser felizes sem bens exteriores: com efeito, a autossuficiência e a ação não pressupõe  excesso". Ética a Nicômaco, Livro 10.


Para a autossuficiência e a autonomia é só para isto que serve o dinheiro, condições que não são possíveis ao escravo. O dinheiro nos dá autossuficiência para não nos preocuparmos com coisas básicas, como alimentação, mas ser afortunado e, portanto, autônomo financeiramente, não é sair por aí comprando coisas. Nos é caro dizer ao dinheiro - e a todos os prazeres que ele compra - que somos seu dono ou ainda algo do tipo: "Não dependo somente de ti para ser feliz!". Aos duros e desafortunados vai parecer piada por o dinheiro não lhe ser muito familiar. A questão da autonomia vai além do dinheiro em si. 



Ter dinheiro e todos os prazeres que este pode proporcionar não é ruim, o ruim é ser dependente e escravo deste e de qualquer prazer. A autonomia apontada por Aristóteles se relaciona à dependência dos prazeres, do apego aos "belos corpos gregos", ao irresistível sorvete de chocolate supreme suíço. Do sexo à gula e a outros prazeres. Seguir o caminho a que nos propusemos e não nos desviarmos dele, recusando os prazeres mais imediatos, exige uma autonomia de espírito, de caráter e de conduta, que não se conquista de imediato. O mal não está em ter desejo, mas em deixar-se ser engolido por ele.

"A vida é feita de escolhas", é o ditado popular. Em Aristóteles a conduta autônoma é possível de ser conseguida com a prática e a análise constante da melhor escolha em todas as situações em que nos envolvemos diariamente, que é o caminho da moderação. Estas escolhas são resultado de uma vida de constante análise de nossos hábitos. A partir do momento em que exigimos e deixamos a razão dominar as nossas escolhas em busca da melhor resposta para cada situação, estas passam a ser quase que automáticas, pois são resultado de uma razão que poucos são capazes de exercer senão o  verdadeiro sábio. 

Em seu manual de ética, Aristóteles reconhece essa dificuldade: 

"se palavras bastassem para que nos tornássemos bons, elas teriam com justiça obtido grandes recompensas (...) e deveríamos ter as palavras sempre à disposição". 

A virtude do uso dessa razão é o que aproxima o sábio dos deuses.

"As pessoas que usam sua própria razão e a cultivam parecem ter o espírito nas melhores condições e ser mais queridas pelos deuses. De fato, se os deuses se interessam de algum modo pelos assuntos humanos, como geralmente se crê, é razoável imaginar que aquilo que é melhor e tem mais afinidades com eles (isto é, a razão) lhes dê prazer..., e quem estiver nestas condições será provavelmente mais feliz." Sendo assim, o sábio é o homem mais feliz.

Num possível diálogo entre o sábio aristotélico, o romântico e o cínico, ele não concordaria com nenhum dos dois e apontaria o caminho da moderação.


O romântico: Dinheiro não traz felicidade. 
O cínico: Mas manda buscar!
O sábio aristotélico: Não manda buscar, a ele não devemos nos escravizar, assim como a todos os prazeres. É um caminho para a autonomia e desta para a felicidade.