Crédito da imagem: http://migre.me/fNo9b
Meursault é o personagem marcado pela indiferença a tudo. Todas as situações lhe são “naturais”, no sentido de que é próprio da natureza humana. Meursault perdeu o sentido de indignação diante dos acontecimentos absurdos da vida e da morte. Acredito que todas as pessoas já sentiram (e sentem) indiferença em suas vidas, mas o que torna Meursault diferente é a sua indiferença a tudo. O personagem encara tudo com uma lucidez invejável, mas também com uma frieza assombrosa. Ainda que Meursault se diga, em suas reflexões, igual a todo mundo, ele é diferente, ‘um estrangeiro’, o exagero de sua indiferença o torna quase um mito ou uma lenda. Apesar de sua indiferença, Meursault, no encontro não deixou nenhum confrareiro indiferente. As opiniões se alternaram entre herói e psicopata. O primeiro (herói) por ter coragem de assumir mesmo em ambiente hostil a sua maneira racional de encarar a vida e o segundo (psicopata) por não parecer ter mais sentimentos. Paixão, sofrimento ou culpa não são demonstrados pelo personagem, suas emoções são sensoriais - o prazer com Marie - e mesmo primárias – comer, dormir, fumar. A indiferença de Meursault chega até a ser para consigo mesmo. Meursault identifica-se com o universo ao qual nada abala ou comove, e que existe em placidez independentemente do que aconteça.
Foi dito em nosso encontro que Meursault é um personagem criado para exemplificar a teoria do autor, Albert Camus, sobre os absurdos, que é um tema estudado pelo Existencialismo, embora o próprio Camus rejeite este rótulo de sua obra. O estrangeiro faz parte de uma trilogia criada por Camus sobre o tema do absurdo, que é quando as relações causais – causa e consequência – não tem sentido ou não existem.
Mesmo sendo indiferente aos absurdos da vida, Meursault não está imune a eles, isso fica evidente em seu julgamento, quando se acha injustiçado por ter sido condenado a pena de morte mais por “não ter chorado no enterro da mãe do que do que por ter matado um homem”. A incoerência do julgamento e o infeliz “acaso” que lhe fez matar o árabe quebram o equilíbrio da vida de Meursault.
Meursault é uma personagem dúbia, ora é possível se identificar com ele, ora sua indiferença parece uma inocente loucura. Ele não admite esperanças de felicidade além do mundo conhecido nem para si ou para outros. “Todos são privilegiados”, ele diz, que é outro jeito de dizer que ninguém o é. A condição humana nivela a todos da mesma condenação: a morte.
Mas também Meursault encontra redenção, de certa forma, na prisão pouco antes de morrer ele tem a real noção do rumo que sua vida irá tomar. Um dos textos lidos no encontro diz que Meursault não joga o jogo da sociedade, por isso ele seria o estrangeiro, alguém semelhante, mas que desobedece ou ignora as regras elementares da sociedade.
Os mais entusiastas com Meursault disseram que ele era lúcido, honesto e honrou as próprias convicções. Já os mais pessimistas viram com ressalvas todas estas atitudes, dizendo que Meursault foi o vilão de si mesmo. Alguém que decide viver a margem dos costumes e hipocrisias da sociedade arcará com as consequências. Meursault no fim é condenado à morte, mas nos últimos instantes desta diz-se preparado para vivê-la novamente.
Mesmo que Meursault não possa ser considerado maldoso, seus atos são no mínimo antipáticos – antipáticos: falta de empatia em Meursault pelas outras pessoas, ele jamais se coloca no lugar dos outros, ele só compreende o que é “natural” do homem. O acaso tão citado como agente dos acontecimentos é algo tão misterioso quando imprevisível.
Há uma passagem no livro em que Meursault admite que suas emoções são atrapalhadas pelas suas necessidades. No enterro de sua mãe ele admite ter vontade de dormir e não perceber direito o que se passava diante de si. Nessa parte crucial da história Meursault é coerente com sua filosofia de vida, ele não sente pena de quem morreu porque não sente pena nem de si mesmo. O processo de luto é, acredito eu, um pouco pela infelicidade do morto, mas também pela nossa própria infelicidade ao morrer.
A história do estrangeiro mostra a irracionalidade da racionalidade, tanto em Meursault cuja toda lucidez não o salva da decapitação e durante o julgamento onde as justificativas para a condenação são incoerentes com o crime.
Pode-se dizer que Meursault não é um personagem “real”, porque ele é um extremo, por um lado ele representa a indiferença que habita dentro de casa um de nós e por outro a desumanização da racionalidade excessiva.
Sinceramente ainda não tenho certeza se entendi o que Camus quis dizer com esta história, mas para mim é que diante dos absurdos da vida, há maneiras absurdas de se comportar (como Meursault), mas que principalmente há absurdos causados por nós mesmos acontecendo e se repetindo em nosso cotidiano.
Questionei-me se Meursault não estaria morto por dentro, pois alguém sem ambições como ele, que se acostuma com todas as situações, alguém que não tem ganas ou fome, alguém pra quem tudo tanto-faz-tanto-fez, é alguém que não usa sua potência transformadora. Meursault é indiferente porque não acha que ele faça diferença na vida dos outros, assim como os outros não fazem diferença na sua.
No mundo “natural” de Meursault não há espaço para nenhum sentimento, só necessidades primárias. Acredito que Meursault viveu sendo apenas meio homem, ele é também o que o homem gostaria de ser idealmente: totalmente racional, excluindo qualquer sentimento. Mas isso não é possível por dois motivos, primeiro por que ser totalmente racional não é ser humano e depois porque o mundo não é totalmente racional, como geralmente se pressupõe, muito pelo contrário há incoerências e absurdos insolucionáveis aos quais a racionalidade não da conta de explicar, do mesmo modo que mais nada resolve O Mistério do Mundo.
Foi dito em nosso encontro que Meursault é um personagem criado para exemplificar a teoria do autor, Albert Camus, sobre os absurdos, que é um tema estudado pelo Existencialismo, embora o próprio Camus rejeite este rótulo de sua obra. O estrangeiro faz parte de uma trilogia criada por Camus sobre o tema do absurdo, que é quando as relações causais – causa e consequência – não tem sentido ou não existem.
Mesmo sendo indiferente aos absurdos da vida, Meursault não está imune a eles, isso fica evidente em seu julgamento, quando se acha injustiçado por ter sido condenado a pena de morte mais por “não ter chorado no enterro da mãe do que do que por ter matado um homem”. A incoerência do julgamento e o infeliz “acaso” que lhe fez matar o árabe quebram o equilíbrio da vida de Meursault.
Meursault é uma personagem dúbia, ora é possível se identificar com ele, ora sua indiferença parece uma inocente loucura. Ele não admite esperanças de felicidade além do mundo conhecido nem para si ou para outros. “Todos são privilegiados”, ele diz, que é outro jeito de dizer que ninguém o é. A condição humana nivela a todos da mesma condenação: a morte.
Mas também Meursault encontra redenção, de certa forma, na prisão pouco antes de morrer ele tem a real noção do rumo que sua vida irá tomar. Um dos textos lidos no encontro diz que Meursault não joga o jogo da sociedade, por isso ele seria o estrangeiro, alguém semelhante, mas que desobedece ou ignora as regras elementares da sociedade.
Os mais entusiastas com Meursault disseram que ele era lúcido, honesto e honrou as próprias convicções. Já os mais pessimistas viram com ressalvas todas estas atitudes, dizendo que Meursault foi o vilão de si mesmo. Alguém que decide viver a margem dos costumes e hipocrisias da sociedade arcará com as consequências. Meursault no fim é condenado à morte, mas nos últimos instantes desta diz-se preparado para vivê-la novamente.
Mesmo que Meursault não possa ser considerado maldoso, seus atos são no mínimo antipáticos – antipáticos: falta de empatia em Meursault pelas outras pessoas, ele jamais se coloca no lugar dos outros, ele só compreende o que é “natural” do homem. O acaso tão citado como agente dos acontecimentos é algo tão misterioso quando imprevisível.
Há uma passagem no livro em que Meursault admite que suas emoções são atrapalhadas pelas suas necessidades. No enterro de sua mãe ele admite ter vontade de dormir e não perceber direito o que se passava diante de si. Nessa parte crucial da história Meursault é coerente com sua filosofia de vida, ele não sente pena de quem morreu porque não sente pena nem de si mesmo. O processo de luto é, acredito eu, um pouco pela infelicidade do morto, mas também pela nossa própria infelicidade ao morrer.
A história do estrangeiro mostra a irracionalidade da racionalidade, tanto em Meursault cuja toda lucidez não o salva da decapitação e durante o julgamento onde as justificativas para a condenação são incoerentes com o crime.
Pode-se dizer que Meursault não é um personagem “real”, porque ele é um extremo, por um lado ele representa a indiferença que habita dentro de casa um de nós e por outro a desumanização da racionalidade excessiva.
Sinceramente ainda não tenho certeza se entendi o que Camus quis dizer com esta história, mas para mim é que diante dos absurdos da vida, há maneiras absurdas de se comportar (como Meursault), mas que principalmente há absurdos causados por nós mesmos acontecendo e se repetindo em nosso cotidiano.
Questionei-me se Meursault não estaria morto por dentro, pois alguém sem ambições como ele, que se acostuma com todas as situações, alguém que não tem ganas ou fome, alguém pra quem tudo tanto-faz-tanto-fez, é alguém que não usa sua potência transformadora. Meursault é indiferente porque não acha que ele faça diferença na vida dos outros, assim como os outros não fazem diferença na sua.
No mundo “natural” de Meursault não há espaço para nenhum sentimento, só necessidades primárias. Acredito que Meursault viveu sendo apenas meio homem, ele é também o que o homem gostaria de ser idealmente: totalmente racional, excluindo qualquer sentimento. Mas isso não é possível por dois motivos, primeiro por que ser totalmente racional não é ser humano e depois porque o mundo não é totalmente racional, como geralmente se pressupõe, muito pelo contrário há incoerências e absurdos insolucionáveis aos quais a racionalidade não da conta de explicar, do mesmo modo que mais nada resolve O Mistério do Mundo.

