quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O herói da caverna

Crédito da imagem:
http://migre.me/fNreb
O "herói" sai da caverna e descobre a realidade. Isso é possível? Acho que não.

A caverna é como uma cebola: há camadas e camadas de “realidades” ou dimensões de cavernas. Seremos e somos sempre ignorantes do verdadeiro real. Talvez por isso existam tantas visões sobre a realidade neste mundo. Não há consensos. Há quem, a ferro e fogo, tente impor a sua visão do real ou da verdade.

No desdobramento da peça Deus, de Wood Allen, inicialmente uma tragédia grega, percebemos se tratar de uma encenação, passando, então, a uma peça sobre a encenação de uma tragédia grega.

Em determinado momento os atores saem da peça sobre a peça e se dirigem à plateia, lembrando os espectadores também da sua condição de encenadores de uma realidade, havendo igualmente outra platéia assistindo-os e que nada a sua volta seria de fato real. Esta impressão, para quem está assistindo à peça, é, de certa forma, transmitida. Alguns espectadores chegam a olhar para traz para ver a platéia da platéia. É confuso?

Podemos ser esse "herói" da caverna em busca do real. É uma tarefa ingrata, mas excitante.

Nunca saberemos quando chegaremos de fato ao real, pois poderemos ser só mais um com uma visão particular do que é o real, do que é a verdade.

A condição da Filosofia está atrelada à busca contínua da verdade, mas não tem fim. A verdade está encoberta e limitada para o conhecimento do homem, este é limitado pelos seus sentidos, sua personalidade, sua condição de humano, verdadeiras cavernas sobre cavernas que o impedem de chegar a uma verdade absoluta, ao conhecimento do real.

A caverna humana

Crédito da imagem:
http://migre.me/fNrma
Dentre todas as questões levantadas sobre A alegoria da caverna, o tema da realidade versus aparência é para mim o mais marcante. 

Nascemos num corpo definido e estamos restringidos a perceber as coisas dentro dos limites deste corpo, sejam estes limites físicos ou psicológicos. Mas além dos limites do corpo há também as limitações culturais, pois percebemos os acontecimentos sob o viés de nossa cultura e meio social no qual fomos criados. 

Os homens da caverna não estavam limitados apenas pelos grilhões, mas também pela sua percepção do mundo, o que lhes conferia a condição de acorrentados pela conduta comum do grupo. Um deles descobriu novas possibilidades e voltou para mostrar aos demais a verdade segundo sua nova perspectiva. A reação de violência do grupo faz levantar a pergunta do por quê há tanta resistência em experimentar uma nova ideia de realidade? 

Ignorância e violência quase sempre andam juntas. E o líder do grupo quase sempre é pária antes de ter credibilidade. 

Estar na caverna significa estar alienado da realidade. Sair da caverna em direção à luz é descobrir o desconhecido. 

A caverna é o ambiente seguro e limitado que não permite ver com clareza a si mesmo, aos outros e a realidade que nos cerca. 

O que tirou aquele primeiro homem da caverna foi sua capacidade de estar aberto ao novo e lançar-se ao desconhecido mundo. Um mundo cheio de expectativas, dúvidas, e não sem alguma dor e sofrimento, mas também de descobertas prazerosas, pelos quais vale a pena passar se permitirem a realização da potencialidade do homem, de dar sentido ao movimento da vida, que é um eterno descobrir desconhecidos.