domingo, 27 de maio de 2012

Amar o impossível

 
"Sempre é e nunca vem a ser ou perece, nem cresce ou decresce, e não é belo em um sentido e feio em outro, nem belo em um momento e feio em outro, nem belo em relação a alguma coisa e feio em relação a alguma outra, nem belo em um lugar e feio em outro, como seria se fosse belo para uns e feio para outros..." Banquete, de Platão.


Amor idealizado

Numa visão popular, o Amor platônico é tido como o amor idealizado, inalcançável, vinculado a um amor espiritual. Vejo-o como metáfora do amor que leva ao conhecimento da verdade e da essência em correspondência ao mito da caverna e ao sistema filosófico de Platão que divide o mundo entre o sensível e o invisível. É um amor direcionado à Filosofia.

Descobrir o amor que vale a pena ser vivido é sair da caverna e descobrir a verdade, o real, o mundo invisível. É sair das amarras deste mundo de sombras (sensível), e, esta realização, é para iluminados. No Banquete, nem mesmo Sócrates seria capaz.

Platão defendia que o Verdadeiro Amor nunca deveria ser concretizado, pois quando se ama tende-se a cultuar a pessoa amada com as virtudes do que é perfeito. Quando esse amor é concretizado, não raro aparecem os nativos defeitos de caráter da pessoa amada. O amor é carente e busca no ser amado aquilo que sente falta ou não tem.

"E por ser filho o Amor de Recurso e da Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primei-ramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar. Sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, ás portas e nos caminhos, por que tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. [...] ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações..." Banquete. Platão

A idealização decorre dessa carência. 

- Amor não é amor do belo, como pensas.
- O que é então?
- Da reprodução e da geração do belo

Banquete. Platão

Hegel, quase se apropriando do conceito do amor platônico como amor da carência, afirma que ela é parte constitutiva do ser que carece. É parte do amante. 


Amor entre homens


Schopenhauer, em sua "Metafísica do amor", acusa o amor platônico de ser um amor somente entre homens e insuficiente para explicar a questão do amor em um sentido mais amplo. Sua conclusão é que o amor é fruto do impulso de vida na preservação da espécie humana.

Ainda, justamente por sua acepção homossexual, o Amor platônico, compreendido como algo elevado, ligado à alma e por não destinar-se a procriação é posto em contraposição ao amor socrático, que seria aquele referente à pederastia ou à atração erótica do mestre por seu discípulo.

No Banquete, das várias proposições para o amor apresentadas ali, quase todas enfatizam elementos homossexuais. Da proposição da origem da Afrodite Urânica, passando pela definição de Aristófanes sobre a alegoria dos corpos divididos tentando se reencontrar, ao fecho dado por Sócrates da lição de Miotia para a apreciação dos belos corpos dos jovens como percurso para apreciação futura do verdadeiro Belo ideal.


Platão nos dias de hoje

O Amor platônico, idealizado como o mais puro e esplendoroso, adquire, a cada época, uma nova acepção.

Na era medieval, com os padres neoplatônicos, relacionavam-no com o amor a Deus, por ser o mais elevado de todos. E ainda temos os trovadores com suas cantigas de amor e de amigo cuja temática é a de um amor impossível.

A era romântica é o auge do Amor platônico. A amada idealizada é pura, o coito é um absurdo. O amante morre sem nem tocar a pele da amada, sendo indigno de tamanha ventura!

Na contemporaneidade, apesar do pragmatismo do capitalismo, definindo até as relações amorosas, o sonho do amor dos contos de fadas ainda permeia nosso imaginário, principal-mente o feminino. Essa mistura de amor romântico/platônico com amor real traz uma discussão eterna sobre o que é o verdadeiro amor.

Vivemos uma "platonomania" em tempos de vampiros e lobisomens apaixonados, de Nicholas Sparks e seus contos de fadas modernos para mulheres adolescentes, sem falar da música emo "chorando" aos berros amores complicados e impossíveis em nossos ouvidos. 

Mesmo na época da geração do "ficar" e dos amores líquidos, ainda encontramos espaço para o amor idealizadamente impossível. Platão nos é uma sombra.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Estrangeiro

Crédito da imagem: http://migre.me/fNo9b
Meursault é o personagem marcado pela indiferença a tudo. Todas as situações lhe são “naturais”, no sentido de que é próprio da natureza humana. Meursault perdeu o sentido de indignação diante dos acontecimentos absurdos da vida e da morte. Acredito que todas as pessoas já sentiram (e sentem) indiferença em suas vidas, mas o que torna Meursault diferente é a sua indiferença a tudo. O personagem encara tudo com uma lucidez invejável, mas também com uma frieza assombrosa. Ainda que Meursault se diga, em suas reflexões, igual a todo mundo, ele é diferente, ‘um estrangeiro’, o exagero de sua indiferença o torna quase um mito ou uma lenda. Apesar de sua indiferença, Meursault, no encontro não deixou nenhum confrareiro indiferente. As opiniões se alternaram entre herói e psicopata. O primeiro (herói) por ter coragem de assumir mesmo em ambiente hostil a sua maneira racional de encarar a vida e o segundo (psicopata) por não parecer ter mais sentimentos. Paixão, sofrimento ou culpa não são demonstrados pelo personagem, suas emoções são sensoriais - o prazer com Marie - e mesmo primárias – comer, dormir, fumar. A indiferença de Meursault chega até a ser para consigo mesmo. Meursault identifica-se com o universo ao qual nada abala ou comove, e que existe em placidez independentemente do que aconteça.

Foi dito em nosso encontro que Meursault é um personagem criado para exemplificar a teoria do autor, Albert Camus, sobre os absurdos, que é um tema estudado pelo Existencialismo, embora o próprio Camus rejeite este rótulo de sua obra. O estrangeiro faz parte de uma trilogia criada por Camus sobre o tema do absurdo, que é quando as relações causais – causa e consequência – não tem sentido ou não existem.

Mesmo sendo indiferente aos absurdos da vida, Meursault não está imune a eles, isso fica evidente em seu julgamento, quando se acha injustiçado por ter sido condenado a pena de morte mais por “não ter chorado no enterro da mãe do que do que por ter matado um homem”. A incoerência do julgamento e o infeliz “acaso” que lhe fez matar o árabe quebram o equilíbrio da vida de Meursault.

Meursault é uma personagem dúbia, ora é possível se identificar com ele, ora sua indiferença parece uma inocente loucura. Ele não admite esperanças de felicidade além do mundo conhecido nem para si ou para outros. “Todos são privilegiados”, ele diz, que é outro jeito de dizer que ninguém o é. A condição humana nivela a todos da mesma condenação: a morte.

Mas também Meursault encontra redenção, de certa forma, na prisão pouco antes de morrer ele tem a real noção do rumo que sua vida irá tomar. Um dos textos lidos no encontro diz que Meursault não joga o jogo da sociedade, por isso ele seria o estrangeiro, alguém semelhante, mas que desobedece ou ignora as regras elementares da sociedade.

Os mais entusiastas com Meursault disseram que ele era lúcido, honesto e honrou as próprias convicções. Já os mais pessimistas viram com ressalvas todas estas atitudes, dizendo que Meursault foi o vilão de si mesmo. Alguém que decide viver a margem dos costumes e hipocrisias da sociedade arcará com as consequências. Meursault no fim é condenado à morte, mas nos últimos instantes desta diz-se preparado para vivê-la novamente.

Mesmo que Meursault não possa ser considerado maldoso, seus atos são no mínimo antipáticos – antipáticos: falta de empatia em Meursault pelas outras pessoas, ele jamais se coloca no lugar dos outros, ele só compreende o que é “natural” do homem. O acaso tão citado como agente dos acontecimentos é algo tão misterioso quando imprevisível.

Há uma passagem no livro em que Meursault admite que suas emoções são atrapalhadas pelas suas necessidades. No enterro de sua mãe ele admite ter vontade de dormir e não perceber direito o que se passava diante de si. Nessa parte crucial da história Meursault é coerente com sua filosofia de vida, ele não sente pena de quem morreu porque não sente pena nem de si mesmo. O processo de luto é, acredito eu, um pouco pela infelicidade do morto, mas também pela nossa própria infelicidade ao morrer.

A história do estrangeiro mostra a irracionalidade da racionalidade, tanto em Meursault cuja toda lucidez não o salva da decapitação e durante o julgamento onde as justificativas para a condenação são incoerentes com o crime.

Pode-se dizer que Meursault não é um personagem “real”, porque ele é um extremo, por um lado ele representa a indiferença que habita dentro de casa um de nós e por outro a desumanização da racionalidade excessiva.

Sinceramente ainda não tenho certeza se entendi o que Camus quis dizer com esta história, mas para mim é que diante dos absurdos da vida, há maneiras absurdas de se comportar (como Meursault), mas que principalmente há absurdos causados por nós mesmos acontecendo e se repetindo em nosso cotidiano.

Questionei-me se Meursault não estaria morto por dentro, pois alguém sem ambições como ele, que se acostuma com todas as situações, alguém que não tem ganas ou fome, alguém pra quem tudo tanto-faz-tanto-fez, é alguém que não usa sua potência transformadora. Meursault é indiferente porque não acha que ele faça diferença na vida dos outros, assim como os outros não fazem diferença na sua.

No mundo “natural” de Meursault não há espaço para nenhum sentimento, só necessidades primárias. Acredito que Meursault viveu sendo apenas meio homem, ele é também o que o homem gostaria de ser idealmente: totalmente racional, excluindo qualquer sentimento. Mas isso não é possível por dois motivos, primeiro por que ser totalmente racional não é ser humano e depois porque o mundo não é totalmente racional, como geralmente se pressupõe, muito pelo contrário há incoerências e absurdos insolucionáveis aos quais a racionalidade não da conta de explicar, do mesmo modo que mais nada resolve O Mistério do Mundo.

Prometeu: conhecer não é salvar-se

Crédito da imagem: http://migre.me/fNq55


Na peça Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, o autor conta a lenda grega do deus Prometeu (aquele que tem o dom da previsão). Na mitologia grega, Prometeu é o criador dos homens e responsável por doar aos mesmos o fogo, este que era uma dádiva exclusivamente divina, mas que se tornou indispensável à empreitada humana. Esta peça faz parte de uma trilogia que conta a história completa do deus que mais se importou com os homens. Na cultura helênica o fogo dado aos homens é mais do que a principal ferramenta humana é também símbolo do conhecimento, da engenhosidade, da esperteza, da sagacidade e da inteligência do homem. Pois, o que Prometeu oferece aos homens é mais que uma ferramenta, o fogo representa uma nova faculdade do homem, a capacidade de transformar as forças da natureza em benefício próprio, algo que até então, era exclusividade dos deuses.

Prometeu paga um preço pela sua audácia, por ter amado mais a sua criatura (homem) do que os seus semelhantes (deuses). Por causa disso ele é submetido a um castigo, de sofrimento repetido: o abutre que surge todos os dias para lhe devorar o fígado. Diante da angústia do castigo, Prometeu arrepende-se e amaldiçoa sua sorte, contudo está convicto de que foi julgado com demasiada severidade por Júpiter.

Lembro-me de termos discutido no último encontro que Prometeu mesmo sabendo o castigo que lhe seria imposto, pois tem o dom da previsão, segue firme em sua decisão de doar o fogo aos homens. Uma vez feita sua atitude é irrevogável e tudo o que ele pode esperar é o fim do castigo ou o perdão de Zeus. Para Prometeu, tamanho é o maravilhamento com sua criação (o homem) que ele não vê alternativa a não ser deixá-la perfeita e para isto busca nos céus divinos o incremento faltante ao homem: o fogo (conhecimento racional).

O principal ponto discutido no encontro foi sobre a real utilidade do conhecimento para a humanidade, pois o conhecer também traz sofrimento e angústia e não apenas livra os homens destas. O despertar da consciência não é livrar-se da condição humana pelo contrário, é ter senso dos próprios limites e grilhões, é um olhar mais atencioso para as próprias amarras. Em certo ponto da discussão foi dito que a sociedade só se sustenta porque há ignorância em seu meio, pois diante do livre arbítrio a racionalidade não oferece motivos suficientemente fortes para a coexistência pacífica entre os homens e neste caso o lado místico-religioso do homem seria o freio para que a humanidade não caísse na selvageria animalesca da barbaridade. Sendo assim a ignorância, e não apenas o conhecimento, sustentaria a sociedade.

Prometeu acorrentado é a imagem da condição humana: consciente de seus grilhões, porém sem poder para livra-se do sofrimento.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sobre Prometeu: conhecer e sofrer

No Prometeu acorrentado de Ésquilo, o que talvez mais seja enfatizado é a questão da tirania de Zeus e o ato heróico de Prometeu em levar o fogo á humanidade, símbolo da ciência e da civilização. Prefiro enfatizar apenas uma das questões levantadas no último encontro. A relação entre conhecer e sofrer.

Pensar, conhecer, descobrir leva-nos inevitavelmente ao sofrimento?

Nós, efêmeros confrareiros, durante a discussão, ainda que intuitivamente e na base do “achismo”, não fugimos muito da concepção de dois grandes pensadores: Freud e Nietzsche.

Freud, em seu ensaio: A aquisição e o controle do fogo, ressalta que com a conquista da civilização, ou seja, o domínio do fogo, o homem passa a direcionar sua energia límbica (a do prazer) para os afazeres da tecnologia. Instala-se assim, em seu espírito, a melancolia, refreando este prazer.

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche acha inevitável também este sofrimento, seu filósofo grego predileto, Heráclito, o verdadeiro filósofoprometéico, e que foi o primeiro a adotar o fogo como o símbolo do conhecimento e autoconhecimento, é, para ele, o grego mais iluminado e também o mais trágico, por ser o mais sábio.

Nietzsche atribui a si a alcunha de último filósofo dionisíaco, contrapondo o deus Dionísio (conhecimento, verdade) a Apolo (arte, irreal). O sofrimento para o homem é inevitável, a fuga está na arte em Apolo, este representa “os mais puros momentos de repouso do ser”.

Na alegoria da caverna de Platão, o herói, ao sair da caverna e ao descobrir o real, e, ainda que sabendo da animosidade que sofrerá ao retornar à caverna, vai ao encontro de seus pares para passar-lhes a boa nova. Já estamos entrando aqui em uma interpretação cristã?

 A busca do real (da verdade e do conhecimento), estudado na epistemologia e na metafísica, talvez seja o primeiro grande tema da filosofia e que gostaria de continuar nos futuros encontros. Fica aqui a sugestão para uma outra conversa.

Bibliografia
FREUD, S. (1976a). A aquisição e o controle do fogo. In: S.Freud, edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 22, pp. 223-233). Rio de Janeiro: Imago.
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000
GHIRALDELLI Jr., Paulo. Heráclito no Divã. In: Revista Discutindo Filosofia, ano 1, n.3. São Paulo: Escala Educacional.
http://tragica.org/artigos/02/03-clademir.pdf
http://revista.triplov.com/Salao_do_Folhetim/Raissa_Cavalcanti/Prometeu.htm
http://insurgentecoletivo.blogspot.com/2012/02/prometeu-pandora-e-o.htmlO conflito trágico entre arte e verdade no pensamento de

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Oh, Prometeu!

Minha intenção era seguir a ordem das nossas discussões, porém, pensei melhor e decidi focar, primeiramente, na obra que serviu de estudo e, posteriormente, desenvolver uma reflexão de tudo o que conversamos. 

Não sou exímio conhecedor de mitologia grega, ou mesmo romana, mas o texto sugerido foi ótimo, pois, depois da leitura, pude ver algumas coisas que estavam obscuras para mim. 

Hoje me pergunto o quanto vale termos uma informação ou mesmo um conhecimento sobre alguma coisa se não podemos inferir. Saber por saber, será isso o que mais valeu ontem, vale hoje e valerá amanhã. Pensei bastante sobre algumas coisas que a Camila falou sobre conhecimento e informação. A Bia e o Edu, por serem bibliotecários como eu, devem ter ouvido muito a questão do "dado da informação" e do "conhecimento"; que dado estrutura torna-se informação e que a informação certa no momento certo gera o tal conhecimento, mas as indagações da Camila foram bem mais pertinentes. 

Temos que discernir sobre o que é necessário para cada momento. Devo saber o todo se apenas usarei parte? Talvez seja mais produtivo e eficaz você estar muito bem informado pontualmente do que ter todo um conhecimento que não agrega nada a você nem ao próximo. Saber qual é seu destino e não poder fazer nada para mudá-lo é o mesmo que não saber nada? De que adiantou Prometeu saber que tudo que ele fizesse teria um resultado se ele não poderia evitar ou mesmo mudar. 

Há menos de uma semana vi uma reportagem sobre o Japão. Estudos mostraram que nos próximos 4 anos é certo que Tóquio vai sofrer um abalo sísmico de um grau bastante elevado, e hoje a população já está simulando como serão os atendimentos aos feridos e o governo trabalha com uma estimativa de morte alta, milhares de mortos, mas se eles simplesmente deixassem por conta da natureza ao invés de milhares seriam milhões. Então essa é uma informação que você pode fazer algo para mudar, mesmo que você não consiga impedir o terremoto.

Eu ouvia muito, quando era menor, que o conhecimento seria algo que ninguém jamais tiraria de mim, que ele não pesa e nem ocupa espaço, certamente quem me dizia isso jamais repetiria isso nos dias de hoje. Tanto o nosso conhecimento, quanto o conhecimento que Prometeu possuía, só nos acorrenta mesmo. Ele sabia algo que lhe mantinha vivo, porém nada valia para ele se livrar do castigo. Hoje somos ansiosos por informação e conhecimento, pois temos a impressão de que isso vai nos libertar, mas não é o que acontece na verdade. O que fazer? Abster-se para não sofrer ou sofrer por não absorver? Prometeu rendeu!

Antes de discutirmos o texto em si, falamos de muitas coisas importantes que nos fizeram refletir muito. A Razão x Felicidade, Escuridão x Luz e também a questão do Poder. Falamos, ouvimos, falamos e falamos, e ouvimos e outras vezes quase não ouvimos de tanto que falamos, mas nas próximas reuniões falaremos e ouviremos na mesma intensidade se "Deus", olha eu me esquecendo de Deus, Ele também foi... de nossas discussões.

Desculpem-me pela falta de rigor acadêmico no texto, mas acho que dessa forma eu consegui me expressar melhor. Agora é com vocês. Comentem, critiquem, elogiem e principalmente escrevam o texto de vocês.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O herói da caverna

Crédito da imagem:
http://migre.me/fNreb
O "herói" sai da caverna e descobre a realidade. Isso é possível? Acho que não.

A caverna é como uma cebola: há camadas e camadas de “realidades” ou dimensões de cavernas. Seremos e somos sempre ignorantes do verdadeiro real. Talvez por isso existam tantas visões sobre a realidade neste mundo. Não há consensos. Há quem, a ferro e fogo, tente impor a sua visão do real ou da verdade.

No desdobramento da peça Deus, de Wood Allen, inicialmente uma tragédia grega, percebemos se tratar de uma encenação, passando, então, a uma peça sobre a encenação de uma tragédia grega.

Em determinado momento os atores saem da peça sobre a peça e se dirigem à plateia, lembrando os espectadores também da sua condição de encenadores de uma realidade, havendo igualmente outra platéia assistindo-os e que nada a sua volta seria de fato real. Esta impressão, para quem está assistindo à peça, é, de certa forma, transmitida. Alguns espectadores chegam a olhar para traz para ver a platéia da platéia. É confuso?

Podemos ser esse "herói" da caverna em busca do real. É uma tarefa ingrata, mas excitante.

Nunca saberemos quando chegaremos de fato ao real, pois poderemos ser só mais um com uma visão particular do que é o real, do que é a verdade.

A condição da Filosofia está atrelada à busca contínua da verdade, mas não tem fim. A verdade está encoberta e limitada para o conhecimento do homem, este é limitado pelos seus sentidos, sua personalidade, sua condição de humano, verdadeiras cavernas sobre cavernas que o impedem de chegar a uma verdade absoluta, ao conhecimento do real.

A caverna humana

Crédito da imagem:
http://migre.me/fNrma
Dentre todas as questões levantadas sobre A alegoria da caverna, o tema da realidade versus aparência é para mim o mais marcante. 

Nascemos num corpo definido e estamos restringidos a perceber as coisas dentro dos limites deste corpo, sejam estes limites físicos ou psicológicos. Mas além dos limites do corpo há também as limitações culturais, pois percebemos os acontecimentos sob o viés de nossa cultura e meio social no qual fomos criados. 

Os homens da caverna não estavam limitados apenas pelos grilhões, mas também pela sua percepção do mundo, o que lhes conferia a condição de acorrentados pela conduta comum do grupo. Um deles descobriu novas possibilidades e voltou para mostrar aos demais a verdade segundo sua nova perspectiva. A reação de violência do grupo faz levantar a pergunta do por quê há tanta resistência em experimentar uma nova ideia de realidade? 

Ignorância e violência quase sempre andam juntas. E o líder do grupo quase sempre é pária antes de ter credibilidade. 

Estar na caverna significa estar alienado da realidade. Sair da caverna em direção à luz é descobrir o desconhecido. 

A caverna é o ambiente seguro e limitado que não permite ver com clareza a si mesmo, aos outros e a realidade que nos cerca. 

O que tirou aquele primeiro homem da caverna foi sua capacidade de estar aberto ao novo e lançar-se ao desconhecido mundo. Um mundo cheio de expectativas, dúvidas, e não sem alguma dor e sofrimento, mas também de descobertas prazerosas, pelos quais vale a pena passar se permitirem a realização da potencialidade do homem, de dar sentido ao movimento da vida, que é um eterno descobrir desconhecidos.